<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678</id><updated>2011-04-21T17:03:30.140-07:00</updated><title type='text'>Mário Rodrigues, Escritor</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>10</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-3372754623968912295</id><published>2009-04-16T14:01:00.000-07:00</published><updated>2009-04-16T14:15:52.685-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SeeejVeSnJI/AAAAAAAAAOw/YIETtbv_J-g/s1600-h/M%C3%81RIO.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5325399414285704338" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 122px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SeeejVeSnJI/AAAAAAAAAOw/YIETtbv_J-g/s200/M%C3%81RIO.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;A VENDEDORA DE AZEITONAS &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;(10º conto)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Contratante estava num bar. Sozinho. À sua frente havia um envelope grande e pardo. E um copo. Tomava uns goles avulsos de uma bebida qualquer. Possuía o ar dos que esperam. Esse ar era peculiar nele. Sempre o possuíra. Embora em momentos como aquele aparecia mais acentuadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher vestindo um moletom preto e longo se aproximou da mesa. Os cabelos estavam ocultados pelo capuz do moletom. O rosto maquiado intensamente e as mãos pálidas de cutículas bem-tratadas eram as únicas partes do corpo que se revelavam. Sentou-se à frente do Contratante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: Aceito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRATANTE: Aí está a arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: E a numeração?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRATANTE: Está riscada. Não há perigo algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher de moletom preto apanhou o envelope grande e pardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: E o pagamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRATANTE: O pagamento também está no envelope. A primeira parcela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: E a segunda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRATANTE: Será depositada depois que o serviço for efetuado com sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: Tudo bem. É a praxe, disse a mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levantou e se dirigiu à saída do bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRATANTE: Um momento. Você não vai conferir o dinheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: Não. Quem intermediou o nosso encontro garantiu que você é de confiança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRATANTE: Em meia-hora, o Grande Astro estará saindo de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER: É quando eu o matarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vendedora de azeitonas – como se intitulava, em homenagem a seu ex-namorado – guardou o envelope grande e pardo no bolso interno do moletom. Não era a primeira vez que trabalharia pra clientes como aquele. Saiu à rua. O vento frio do inverno fustigou seu rosto maquiado. Os cabelos continuavam sob o capuz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário Rodrigues – O Contratante – acabou de consumir sua bebida. Esperou diante da mesa vazia aproximadamente vinte e cinco minutos. Refletia sobre o que estava fazendo. O porquê daquilo tudo? Algo tinha que ser feito. Depois disso, apanhou seu celular e discou um número.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alô. É da delegacia? Eu queria fazer uma denúncia anônima. Sim, sim, é bastante urgente. É um assassinato que vai acontecer. De quem? Do Grande Astro. Soube que uma mulher de moletom preto vai matá-lo hoje. Assim que o artista pôr os pés na rua. Espero que os senhores evitem esse crime. Confio na eficiência da polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se da mesa. Pagou a conta ao velho quase surdo que atendia aos fregueses tão raros. Jogou o celular pré-pago no cesto de lixo num dos recantos do bar. Caminhou pela rua fria. Era ainda um homem feito de esperas. Esperava que a morte do Grande Astro se consumasse, que a vendedora de azeitonas agisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A polícia chegaria bem no instante em que a assassina profissional estivesse tentando fugir. Vasculhariam sua roupa e achariam o envelope. E dentro do envelope grande e pardo: encontrariam... Mário Rodrigues se encaminhou à rua onde a vítima morava. Viu policiais e ambulâncias e repórteres. Mário Rodrigues, o escritor, sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na manhã seguinte, em todos os jornais, em todas as tevês, em toda a internet, estará a notícia surpreendente, exceto para o escritor: &lt;em&gt;A assassina do Grande Astro, no momento do assassinato, que a polícia não conseguira evitar, portava um livro dentro de um envelope pardo e grande. Este livro é hoje o mais comentado em todas as mídias e o mais procurado em todas as livrarias:&lt;/em&gt; O LIVRO DAS DEZ MULHERES, &lt;em&gt;de Mário Rodrigues&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-3372754623968912295?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/3372754623968912295/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=3372754623968912295' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/3372754623968912295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/3372754623968912295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/04/vendedora-de-azeitonas-10-conto.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SeeejVeSnJI/AAAAAAAAAOw/YIETtbv_J-g/s72-c/M%C3%81RIO.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-7005884887819347897</id><published>2009-04-09T19:17:00.000-07:00</published><updated>2009-04-09T19:33:52.828-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Sd6tTQaaIDI/AAAAAAAAANw/ABcBGjDqifg/s1600-h/839351%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5322882355933356082" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 104px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Sd6tTQaaIDI/AAAAAAAAANw/ABcBGjDqifg/s200/839351%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;GRISALHA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São duas mulheres. Uma mais jovem do que a outra. Estão de mãos dadas. O forte vento muda de lugar as dunas onde elas pisam. Os pequenos grãos de areia em movimento constante agridem suas pernas sensíveis. Caminham e sabem para onde ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era lindo, diz a mais velha. O homem mais lindo que conheci ou conhecerei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto era perfeito? O corpo sarado?, pergunta a mais jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Era uma beleza que se revelava no seu humor, na sua generosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no seu bom coração, no carinho por mim. No olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início?, pergunta a mais jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não apenas no início, sempre. Ele nunca deixara de me escutar, de se interessar por meus quadros, por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a insegurança quem puxou o gatilho, ele dissera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insegurança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insegurança que eu mesma havia causado, segundo ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um desculpa da parte dele? Uma espécie de racionalização?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, acho que não. Ele era ciumento. Mas também tive culpa. Incitei, em algumas ocasiões, o ciúme dele. Precisava me afirmar, ser cortejada, assediada, desejada, entende? No fundo, eu o amava mais que tudo. Todos aqueles outros homens, que de mim se aproximavam, ricocheteavam, batiam, mas nunca, nunca!, se acoplavam. Não representaram absolutamente nada pra mim. Mas éramos jovens, com duas décadas de vida não se sabe absolutamente nada. Ainda mais em se tratando do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um longo silêncio entre as mulheres. Céu azul. Areia por todos os lados. Nenhum ser humano além delas. O lugar teria eco? Querem saber, mas têm vergonha de gritar. Caminham. Sobem e descem dunas sem se importar com o sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele sabia disso?, pergunta a mais jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro. Sempre deixei claro que o amava, que o queria. Que ele era o máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele percebia? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não. Não entendia. Me policiava. E sofria muito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E você?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu não sofria, achei que ele sempre estaria ali, ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim, quando foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda não sabia que estava grávida. Não tínhamos necessariamente brigado, falávamos normalmente, então ele se virou para mim e disse, olhando nos meus olhos: Você vai se arrepender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual foi sua reação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não prestei atenção. Pra mim, as palavras não tinham as significâncias e ressonâncias que tinham pra ele. Naquela frase simples, ele estava dizendo adeus. Mas dizia mais, dizia que eu não dera o valor que ele merecia, que não prestara atenção, que o subestimei, que o vilipendiei, porém só perceberia tudo isso, e a certeza disso, depois de muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois ele parou de escrever. Casou-se com uma menina comum, que passaria suas roupas, que limparia sua casa, que o esperaria com um jantar saboroso no fim do dia, que seria, se não fosse estéril, a mãe de seus filhos e que seria, hoje posso confessar, feliz, porque era impossível pra uma mulher não ser feliz ao lado dele. Feliz numa intensidade da qual jamais sequer me aproximei. Mas ela morreu jovem, eles viveram juntos dez anos. Fui ao funeral dela. Foi a única morta que vi que não tinha cara de morta, mas de plenitude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro silêncio entre as mulheres. No côncavo formado por um arredor de dunas está a lagoa. Águas azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois do enterro? Vocês se falaram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, depois do enterro nos falamos. Uma conversa que esperara por dez anos. Perguntei, num canto, se ele ainda me amava como antes. Se assim fosse, queria ficar com ele, aceitaria qualquer exigência. Olhou-me profunda e lentamente, não respondeu nada. Depois soube que ele mudara-se para outro país, ou cidade longínqua, não sei bem. Fez rápida fortuna. Os inimigos e invejosos diziam que ele enriquecera traficando drogas no atacado. Não sei se era verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um último encontro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve. Você já devia ter uns quinze anos. Ele estava lindo, como sempre. Seu corpo era ainda mais rijo e definido do que quando recém-saíra da adolescência. Veio espontaneamente, sem avisos. Havia uma empáfia angustiante que chegava a humilhar o interlocutor na sua voz de então. Mais uma vez usou apenas uma frase, com todas as ressonâncias e significâncias: Você se arrependeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher mais jovem perguntou: E você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse a ele: Claro que não me arrependi. Como eu devo ter parecido patética a ele. Como eu não tinha me arrependido se ainda lembrava da sua última frase? Se chorei, todos os dias daqueles quinze anos de intervalo, porque o havia perdido e porque todos os homens que conhecera, antes e depois dele, eram uns imbecis. Naquele dia, ele me mostrou um envelope. Dentro deste havia uma relação de todas as suas posses materiais, inúmeras, convertidas para o meu nome. Ele disse: Agora tenho o direito à tua exclusividade? E foi embora pra sempre e como doeu. Dói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres param diante da lagoa no meio das dunas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este era o lugar preferido dele, diz a mulher mais velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha mesmo bom gosto. É o lugar mais lindo que já vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mergulhe, a água é morna e límpida. Ele amava mergulhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a filha toma o banho, a mãe lembra mais um encontro. O verdadeiro último encontro: uma encomenda que chegara pelos Correios. A mulher mais velha tira da sua mochila a encomenda: um recipiente cheio de cinzas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher mais velha derrama com calma as cinzas dele no lugar que ele desejaria. No lugar que ele mais amou sobre a terra. No lugar que, embora ele jamais soubesse, gerou a única filha que deixara no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é isso, mãe?, pergunta a mulher jovem, de dentro d’água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada filha. Só poeira. Só poeira.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-7005884887819347897?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/7005884887819347897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=7005884887819347897' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/7005884887819347897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/7005884887819347897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/04/grisalha-sao-duas-mulheres.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Sd6tTQaaIDI/AAAAAAAAANw/ABcBGjDqifg/s72-c/839351%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-6185443954916370259</id><published>2009-04-02T18:33:00.000-07:00</published><updated>2009-04-02T18:44:32.080-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SdVpsabSU7I/AAAAAAAAAMw/Q7KTj2WajPE/s1600-h/imagem.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5320274746537038770" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 104px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SdVpsabSU7I/AAAAAAAAAMw/Q7KTj2WajPE/s200/imagem.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;CABROCHA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai todos os dias às sete horas e quinze minutos da manhã. Mas antes prepara a filhinha para a escola e o almoço do marido. Pega um ônibus apinhado de gente. A maioria ela conhece por nome. Faz o mesmo itinerário todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É balconista de uma loja de autopeças. Passa o dia recebendo cantadas grosseiras e engraçadas e quase-sedutoras dos muitos sujeitos que vão até lá para aparelharem seus carros novos ou em ótimo estado de conservação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o almoço, tomado na própria loja em virtude da lonjura entre o trabalho e sua residência, pensa no marido que ficara em casa. O olhar num ponto longínquo. Mastiga pedaços de carne cheios de nervos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido também acorda cedo. Tem como responsabilidade levar a filhinha à escola. Depois volta para casa e fica vendo TV até chegar a hora do almoço quando esquenta a comida preparada pela esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, nos primeiros seis meses de desemprego, passava também os dias fora procurando trabalho. Só voltava à noite. Cansado. Até o dia em que não saiu. Foi vencido e enfraqueceu e perdeu o amor próprio. Desistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim do expediente, ao olhar no calendário, ela faz as contas. Um ano e dois meses e vinte e oito dias de desemprego dele. Imagina que como acontece nos últimos meses irá encontrar o marido na calçada de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estará sem camisa e fumando um cigarro barato. Seu olhar estará opaco. Ela irá fazer o jantar e convidá-lo. Jantarão em silêncio. Verão TV. Dormirão na mesma cama, mas não farão amor. Ele diz que não tem o direito de possui-la já que é sustentado por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entra na rua estreita ou beco onde mora. Se surpreende sem a constante presença do marido na calçada. Alguma coisa acontecera. Seu coração resignado parece bater mais forte ou talvez seja só o cansaço da subida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa uma surpresa: uma noite só deles. O homem havia feito o jantar e levado a filhinha à casa da avó materna. Alguma coisa acontecera, ela pensa. O homem há muito tempo não ri daquele jeito. A mesa está decorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tigela com um frango assado. Dois copos graúdos e entre eles uma embalagem de dois litros de coca-cola. Uma tigela menor com vinagrete. Outra tigela com farofa. No centro da mesa há dois pires.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num deles há uma vela amarela e no outro há uma vela azul. Dois pratos emborcados e talheres. O marido risca um fósforo e acende as velas quando a esposa entra. As velas ele ganhara dela no aniversário de primeiro mês de namoro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anexo a cada vela vinha sua mensagem esotérica. Vela Azul: Significa a verdade, a tranqüilidade, a compreensão. Está associada ao planeta Júpiter, ao trabalho e aos negócios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vela Amarela: Significa a vida, a alegria, o entusiasmo, o vigor mental, o poder. Está associada ao Sol, aos relacionamentos de dar e receber, aguça o intelecto. Ela sabe o significado das velas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo acontecera naquele dia. Ela tem agora certeza. Mas quer manter o suspense. Falaram banalidades durante o jantar. Lembraram um tempo antigo quando foram, senão felizes, satisfeitos ao menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apaga as velas quando acaba o jantar. A sala inicialmente escura é aos poucos dominada por uma fraca luz cúmplice vinda da rua. Ele a abraça. Neste abraço a mulher sente o antigo vigor do seu homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe que o desemprego é capaz de inibir a libido, o que acontecera nos últimos meses, mas jamais eliminá-la. Ela pensa em perguntar ao ver a energia dele recuperada. Mas não faz isso. Não quer tirar do marido o prazer de falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O abraço sôfrego e o beijo forte fazem o casal cair imperfeitamente sobre o sofá. Ela quase faz a pergunta. Carícias e afagos ousados. Estão quase despidos. Ele sem camisa e ela só com as roupas de baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher pergunta: Você arranjou um emprego? Ele cessa as carícias. Afrouxa o abraço. Sai de cima de sua esposa. Deixa-a interrogativa e arfando sobre o sofá furado. O homem se retira de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher enxuga as lágrimas com as peças de roupas que apanha uma a uma pelo chão da sala. Sente-se encurvada também interiormente. Ele não vai para muito longe. Fica sentado num dos degraus da calçada de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem havia durante o dia matado um rato gigante que invadira o beco – e por isso recebido uma ovação de velhas aposentadas e crianças remelentas – aquilo fora suficiente para ele se sentir novamente útil. Porém continua desempregado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como há um ano e dois meses e vinte e oito dias. Também ele contabiliza diariamente sua agonia. Uma linda lua redonda domina o céu. Mas para aquele homem é apenas um buraco branco no meio da escuridão celeste.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-6185443954916370259?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/6185443954916370259/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=6185443954916370259' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/6185443954916370259'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/6185443954916370259'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/04/cabrocha-sai-todos-os-dias-as-sete.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SdVpsabSU7I/AAAAAAAAAMw/Q7KTj2WajPE/s72-c/imagem.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-5548189505255382726</id><published>2009-03-26T14:23:00.000-07:00</published><updated>2009-04-03T07:37:18.451-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Scvz2tOgQSI/AAAAAAAAALo/wAgi7ImzShU/s1600-h/negr.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5317611906219917602" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 105px; CURSOR: hand; HEIGHT: 211px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Scvz2tOgQSI/AAAAAAAAALo/wAgi7ImzShU/s200/negr.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;NEGRA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Olhos de ágata, como dizia o jovem poeta. Cabelos como a asa da graúna, como dizia o velho escritor. Boca rosada que inteligente falava gracinha pra pouca idade que tinha. Sorriso de leite: para todos beberem. Laço de fita vermelho e vestidinho branco, como o rosto, sedoso. Copia perfeita da mãe – pensava o pai – orgulhoso, ao vê-la bebê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos de ágata em olhos de águia se tornaram e os cabelos luziram ainda mais. A boca rosa era agora falante e fonte de delícias ocultas. Fitinhas vermelhas não usava mais. Somente trancinhas às vezes fazia quando a preguiça não deixava se adornar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roliças coxas surgiram onde antes cambitos havia. Já nem o vestido de cambraia existia pra dos olhos famintos a beleza ocultar. Já é quase mulher – dizia o pai – pesaroso, ao vê-la crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai que bebia levava amigos pra casa. Olhares, gracejos, risinhos e dos mais exaltados – e mais audaciosos – uns beliscões ela sentia. A mãe reclamava, quando a zorra por fim terminava. Mas o pai ébrio não atendia. Às vezes batia na amada sofrida e na filha tão bela. Tentava, em vão, tirar da menina, com violência, a extrema beleza ao vê-la mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sustenidos e bemóis. Música a menina estudava. E, como se ainda isso fosse possível, os olhos – de brilhos cheios – mais bonitos ficaram. A boca carnuda, além de vermelha, agora cantava e encantava, como dissera um seu colega de sala. De volta pra casa na companhia do amigo – esperam, ambos, superada a timidez, carícias brandas trocar. Mas a ambos faltavam as audácias, a desenvoltura – e a descompostura – dos bêbados amigos, do pai da menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No portão, coragem ele junta. Irá pegar na mão tão sedosa de sua amiga. O jovem amigo comete versos às escondidas. Irá recitar à sua amada musicista um soneto singelo e solene que compôs na madrugada. Esquece de na mão tocar, agora resta apenas o soneto, que já está na goela e pretende sair. Chega à boca e vai voar como um pássaro ou borboleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um grito. O pai, da sacada de casa, faz a filha e o amigo se afastarem. O soneto: agora ovo podre a explodir na garganta. Acenam tristes como se tivessem perdido o seu grande dia – de fato perderam – embora por hora ignorem a perda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai já está bêbado e o ódio que sente ao ver a filha – tão moça, tão pura – com o namorado ao portão, ainda o faz mais ébrio. Irá bater nela pra ela aprender que com honra não se brinca. Mas a mãe se coloca entre o pai e a filha – em vão. As mulheres da casa apanham outra vez, como se da sina fugir não fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É noite de sábado e na família todos já sabem: altas horas, o pai chegará com amigos ébrios pra mais uma farra. A mãe e a filha serão acordadas e acuadas servirão ao plantel. A mãe prepara e a filha serve. Na noite de horrores, recebem velhos toques e nojentos palavrões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha no quarto, olhando as bonecas, deita de bruços na cama tão branca. Descansa do trabalho que é lidar com os bêbados amigos do pai. Um deles, o tio, irmão do pai, para sob o pórtico do quarto e contempla a sobrinha tão bela e crescida – seus olhos de álcool não veem pra dentro o sangue que têm, só veem pra fora o corpo de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a mãe quem gritou, ao chegar ao quarto, por ter dado falta da sua filha. Jogou as bonecas que apanhara no piso nas costas do maldito cunhado. O pai ao chegar completou a tarefa e o irmão bêbado resolveu matar. Mas assim não fizera porque o irmão culpou a sobrinha pela sedução e da casa saiu antes que algo de ruim lhe sobreviesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruminando a insinuação do violentador, o pai olha com nojo pra filha, que os trapos recolhe do que vestia. A mãe só chora, muda, o que é um costume – de dor, de vergonha. A casa é silêncio por muitos momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rua!, o pai diz. A mãe estanca o choro e não compreende. Rua!, repete o pai em direção à filha. Ela com trapos de roupa na mão, apanha a fronha e da boca resgata o pouco de sangue que ainda escorre. A dor de agora é mais forte do que a de antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a filha de casa sai, o pai fala que a viu noutros momentos dando liberdade pros amigos da rua, pros colegas do curso de música e da escola normal, pros primos pequenos e pros tios maiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nove meses depois: Cemitério, céu azul, dia brilhoso, pessoas gemendo. A filha no parto morrera, tão pouca idade a coitadinha tinha. Do lado de fora do cemitério, ao homem sem filha só resta ponderar sobre a culpa que tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longe divisa a esposa, tão murcha. Um dia fora mãe e hoje estanca no patamar de mera mulher. Mas, o quê?, ela carrega consigo um bebê? Rodeado em cobertas, chupando chupeta. A mulher estanca diante do marido, culpado por tudo, por tudo de ruim. Mostra o bebê que a filha deixara.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O homem ergue a visão e olha: um bebê apenas. Mas ninguém sabe o que ele vê. Seu punho é cerrado. Posição de soco. Cerrado permanece. Cerrado chegará ao corpo da pobre criança, que antes do golpe sorri, com riso de leite, mesmo ausente de dente. Mas depois chora, com olhos de ágata molhados – cópia perfeita dos olhos da mãe que se fora.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-5548189505255382726?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/5548189505255382726/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=5548189505255382726' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/5548189505255382726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/5548189505255382726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/03/negra-olhos-de-agata-como-dizia-o-jovem.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Scvz2tOgQSI/AAAAAAAAALo/wAgi7ImzShU/s72-c/negr.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-2641021047970774296</id><published>2009-03-19T18:54:00.000-07:00</published><updated>2009-03-20T07:57:56.056-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/ScL40KGUwxI/AAAAAAAAAKg/ChSdRdLLi68/s1600-h/396px-Egon_Schiele_006%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5315084085198373650" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 102px; CURSOR: hand; HEIGHT: 205px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/ScL40KGUwxI/AAAAAAAAAKg/ChSdRdLLi68/s200/396px-Egon_Schiele_006%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;ÍNDIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah o amor. Esse desconhecido que todos julgam conhecer. O amor que é bom e não quer o mal. O amor que é um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê. Que é a obra suprema diante da qual todas as outras são meros esboços. Que é ouvir e entender estrelas. O amor que é grande e cabe no breve espaço de um beijo – o amor que é um lixo e fede a mijo. Tudo o que fez foi por amor. Toda a busca e todo o medo. Não matou ninguém. Na verdade, salvou vidas. Inclusive a de Lua. Ele a amava, mas a tribo à qual pertencia – a das peles escuras e dos trabalhos braçais – não permitia que ele chegasse sequer perto da amada. Observava-a de longe e por isso a chamava de Lua. Inacessível no céu escuro de seus desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro: ele descobrira aquela gordura vegetal que causaria a terrível disenteria que se não tratada seria fatal. Naquele lugar o alimento básico era a mandioca que por si só quase não tem sabor. E também são insípidos os legumes tropicais aquosos – berinjela, maxixe, quiabo – que eram muito consumidos entre eles. Por isso, ao longo dos séculos aquela culinária se apropriou de estimulantes às papilas gustativas como a pimenta-do-reino, cardamomo e a canela. E foi melhorado sensivelmente o sabor dos seus pratos. Ele simplesmente substituiu em várias ocas, usando disfarce de índia, essas especiarias pela gordura vegetal que descobrira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pouco tempo, os primeiros casos de disenteria surgiram. Vários foram os tratamentos experimentados. Mas nenhum surtia efeito. A doença se alastrava entre os poderosos e os primeiros casos já beiravam a morte. É certo que ele pensou – num momento de fraqueza espiritual do qual se envergonha – em deixar que alguns morressem para se vingar dos preconceitos e cerceamentos a que foi submetido durante as duas décadas de sua vida. Mas esta é uma história de amor, não de vingança. No terceiro dia da moléstia, apresentou-se no centro da ocara: Possuo a cura para a assanhada moléstia, ele dissera. Sequer o ouviram. Ele julgara na sua inocência que ignorariam essa história de tribo, que pediriam a cura a ele, que ele os curaria, que como prêmio o Cacique cederia a mão de sua filha: Lua. Nada disso aconteceu. Expulsaram-no.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma semana depois, trouxeram-no de volta. Lua, também contaminada, padecia sensivelmente e os pajés haviam se desesperançado. Nada dera certo. Ele foi colocado no centro da ocara. Um tacape mirava sua cabeça, foi quando o Cacique o questionou: Tens realmente a cura? Ele disse: Sim. Disse o Cacique: Então, fala. Ele não sabe com qual coragem, mas falou pra toda a taba: Temendo a morte o homem manda sua tribo às favas, por que me chamas agora se há sete dias me ignoravas? O Cacique disse: Fizemos mal. O Cacique tinha a humildade do pai que quer salvar a filha. Pedes o que quiseres como expiação pelo nosso mal-feito, mas, por favor, indicai-nos a cura. Ele pediu ao Cacique: Quero tua filha. E o Cacique disse: Se conseguires mantê-la neste mundo, tens o direito de desposá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse ao cacique: Vossa humildade de agora é bem aceita, no entanto, é preciso que se extinga de todo o orgulho em vossos corações. Por isso a cura para a moléstia exigirá que caciques e pajés e pessoas doentes se ajoelhem à beira do Grande Penhasco e – com o rosto voltado pra terra – lambam aquele chão desprezado. Esse gesto catártico deve se repetir por várias vezes. Até que chegue ao espírito da Grande Mãe Terra. Da qual todos somos filhos. Diante de quem todos somos iguais. E ela proporcionará a cura. (Todo esse discurso foi feito com uma retórica perfeita – impondo a ênfase própria das pajelanças e dos curandeiros – estes embusteiros nos quais ele nunca acreditou.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, seguindo à risca suas instruções, toda a tribo se curou. E ele casou com Lua. Rompeu o preconceito de tribos. E mais: se o Cacique morrer antes de nascer um neto homem, ele será o Cacique. Mas ele não está feliz. Lua nunca o amou e embora ela não fale – pois a hierarquia familiar não permite – ele viu sempre presente no olhar dela, durante todos esses anos, e ainda vê, o nojo e o ódio direcionados à sua pessoa. Eu preferiria ter morrido, é que dizem os olhos de Lua. Ele confessa a si mesmo: Está arrependido. Maldito foi aquele dia em que descobriu que o solo do Grande Penhasco continha caulim – a argila branca comumente usada em alguns remédios contra diarréia. Está arrependido. Era melhor não ter existido do que conviver com o nojo de Lua e com a idiotice e a ignorância da sua tribo. Está arrependido de ter salvado Lua e todas aquelas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele se decidiu: Poderia voltar a usar o velho ardil e matar todo mundo. Um genocídio. Mas prefere procurar um novo amor. Afinal, esta é uma história de amor, não de vingança.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-2641021047970774296?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/2641021047970774296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=2641021047970774296' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/2641021047970774296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/2641021047970774296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/03/india-ah-o-amor.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/ScL40KGUwxI/AAAAAAAAAKg/ChSdRdLLi68/s72-c/396px-Egon_Schiele_006%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-813895437959466543</id><published>2009-03-12T14:17:00.000-07:00</published><updated>2009-03-12T14:28:24.363-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Sbl-JpoFHHI/AAAAAAAAAJg/IqAkW7l9rJE/s1600-h/800px-Egon_Schiele_020%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5312415939718093938" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 105px; CURSOR: hand; HEIGHT: 217px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Sbl-JpoFHHI/AAAAAAAAAJg/IqAkW7l9rJE/s200/800px-Egon_Schiele_020%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;JAPONESA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele se sente triste ao entrar no amplo apartamento onde moram. O homem e a esposa como de costume haviam acabado de deixar a moça bonita - secretária dela - em casa. Derreado no sofá, observa a esposa se dirigir ao quarto na penumbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acende as luzes da sala. Quando a claridade lateral proveniente do quarto desaparece - com o fechar da porta - ele se vê engolfado pela escuridão. E pela solidão. Sente uma forte vontade de chorar. Mas não chora. Se fosse mais fraco ou mais forte talvez chorasse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pensa na moça pra quem ele e a esposa deram carona. Depois voltaram pra casa deles. No carro deles. Em pouco tempo estará no quarto deles. Na cama deles. E no final nada era realmente deles. O casal não se amava mais, mas fazia amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanta-se do sofá. Vai à cozinha. Acende a lâmpada. A lâmpada fluorescente aumenta ainda mais sua sensação de solidão. É possível ouvir o som mínimo dos starters e do motor da geladeira. Mexe no eletrodoméstico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senta-se à mesa. Num prato à sua frente: maçã, queijo minas, laranja mexerica. A parte superior da maçã sem o talo: o umbigo da moça bonita. O queijo minas: brancura e frutescência da sua jovem pele. Por parecer um pouco com os lábios da moça, ele escolhe primeiro a mexerica. Cada gomo é um lábio e como tal sugado à exaustão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finda o lanche noturno. Vê cascas e bagaços. Sobras. Nada o surpreende. Já sabe que, afinal, mesmo se escolher a moça bonita o fim será: breve saciedade e cascas e bagaços. Sabe que - como todos os outros humanos sobre a terra - não tem ninguém: mesmo asfixiado por amigos e parentes e familiares e amantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher o espera sem perfumes sem lingeries especiais com sonolência no quarto. Ele continua com o pensamento triste. Sabe também que sua escolha - se é que venha a acontecer - não representará nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que escolher – a rotina ou a moça bonita, a convenção ou a aventura, a convivência pacífica ou o sexo selvagem, a respeitabilidade ou o exibicionismo – fará dele um sujeito só e infeliz. Pensa na fala da secretária, sua amante: Você quer continuar com aquela japonesa ridícula? Faça alguma coisa por nós!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No banheiro do quarto, observa por minutos uma corda fina de náilon azul. A corda está guardada há meses pra um objetivo especial. Ele chega a acariciá-la com os dedos. Treina no seu próprio pescoço. Talvez nesta noite, ele pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois ele abre uma caixa que esconde da esposa. Lê rótulos: Uprima, Levitra, Cialis, Viagra. Escolhe o Levitra. Embalagem de um comprimido. Sua ação tem início em pouco mais de quinze minutos. O efeito é de seis a oito horas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não é uma necessidade física – ele tem só quarenta e poucos anos – é uma necessidade psicológica. Vê a esposa na cama sob lençóis. Os olhos puxados quase adormecidos. Ele lembra do possível efeito colateral: terá dor de cabeça amanhã. Mas isso ele já tem de sobra.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-813895437959466543?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/813895437959466543/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=813895437959466543' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/813895437959466543'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/813895437959466543'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/03/japonesa-ele-se-sente-triste-ao-entrar.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Sbl-JpoFHHI/AAAAAAAAAJg/IqAkW7l9rJE/s72-c/800px-Egon_Schiele_020%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-7650144488422502527</id><published>2009-03-05T13:06:00.000-08:00</published><updated>2009-03-05T13:25:10.886-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SbBC0p7g-qI/AAAAAAAAAIg/p1j-uZJpTT8/s1600-h/385px-Egon_Schiele_041%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309817433045924514" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 109px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SbBC0p7g-qI/AAAAAAAAAIg/p1j-uZJpTT8/s200/385px-Egon_Schiele_041%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;OXIGENADA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDA-FEIRA: O homem mora só desde o acontecimento. Não atende telefonemas e não recebe visitas. Mas hoje – ao receber as compras que fizera pela internet – deixa a porta aberta. Enquanto paga ao motoboy, o husky entra em sua casa. É a primeira visita depois de meses. Mesmo assim o cão é expulso. Depois, o homem começa a acondicionar no armário os miojos e os pacotes. Droga, grita, Droga. Droga, eu não pedi biscoitos recheados. Atira o maldito biscoito pela janela. Os vidros fechados impedem o pacote de cair à rua. O impacto trinca o vidro. Ele conclui o serviço: de um soco espatifa o vidro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;No passado uma mulher de cabelos oxigenados dissera: Amor, não vou mais comer biscoitos recheados. Não quero ter celulites e nem engordar. Você nunca vai me trocar por outra, não é?&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERÇA-FEIRA: Quando o homem acorda está na sala. Um curativo mal-feito envolve sua mão. Ainda está um pouco bêbado. Olha pro pacote esfacelado de biscoitos ao pé da parede até ser vencido pelo cansaço e pelo uísque, de novo. Acorda – pela segunda vez – com o husky branco e cinza lambendo seu curativo. Ele expulsa mais uma vez o cão. Nunca fora um homem dado às reflexões. Mas enquanto o mercúrio-cromo arde na ferida no extremo inferior de seus dedos manuais, ele pensa, ajudado pela cor rubra do medicamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;No passado ele dissera ao filho que tinha com a mulher oxigenada: Você vai estudar na capital. Não importa se são cinco anos. Eu mando dinheiro todo mês. Filho meu precisa crescer, virar homem, viver sozinho. Sair da barra da saia da mãe.&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUARTA-FEIRA: &lt;em&gt;Sair da barra da saia da mãe&lt;/em&gt;. Já faz vinte e quatro horas que ele pensou nessa frase. O ardor no peito dele provocado pela frase continua. É um ardor maior do que o causado pelo mercúrio-cromo. O husky resgata o homem de seus pensamentos resvalando em suas canelas. O homem olha a janela quebrada. Preciso mandar consertar o vidro pra esse cão parar de me importunar. Depois disso, pela primeira vez, olha os olhos do animal. O olhar terrivelmente azul-claro brilha. Mais um olhar azul-claro em sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;No passado a mulher oxigenada dissera, rindo: Para, amor. É claro que não são lentes. São naturais. Todas as mulheres de minha família têm olhos dessa cor.&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUINTA-FEIRA: O homem e o husky comem miojos. Você precisa de um nome, diz o homem. Por um descuido dá ao cão um nome masculino comum. O efeito dentro do homem é devastador. Expulsa o husky de casa mais uma vez. Com pregos prende um papelão onde outrora, na janela, havia o vidro que ele quebrara com socos. Não quer mais ser importunado por aquele animal cretino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;No passado a mulher oxigenada conversara com o homem: É seu único filho. E você mal o conhece. O homem dissera: Eu não vou perder meu tempo com um moleque molenga daqueles. A mulher oxigenada gritara: É um absurdo. Cinco anos sem vê-lo. O homem concluíra: Por isso quis que ele estudasse tão longe. Pra vê-lo menos.&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEXTA-FEIRA: O husky não aparece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;No passado a mulher oxigenada tivera outra conversa com o homem. Ela: Sempre ausente. Você nunca está comigo. Sempre viajando. Ele: Tenho que trabalhar. Ela: Só pensa em juntar dinheiro e se esquece de mim. Provavelmente se satisfazendo com outras mulheres por aí. Ele: Sou homem, tenho esse direito. Ela: E eu? Ele: Eu te mataria, desgraçada, se você ao menos abraçasse outro homem. E repetira: Eu te mataria, desgraçada, se você ao menos abraçasse outro homem.&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÁBADO: O homem arranca o papelão à janela e esta volta a ficar aberta. Coloca um prato com duas sardinhas frescas no meio da sala. Depois de muito tempo, acordara cedo e fora à feira comprar aqueles peixes salgados. Ficou vendo o cão se lambuzar com a refeição. Tenho outro presente pra você. Joga um osso sintético pro husky. O animal morde o novo brinquedo. O homem se aproxima e faz um carinho no dorso do cão e chora enquanto o cão adormece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Um dia, no passado, voltando pra casa mais cedo, ele viu sua mulher abraçada a outro homem. Foram seis tiros à queima-roupa, três pra cada. Ele ainda ria, quando o outro homem, apenas um rapaz de vinte e poucos anos, estendeu a mão e disse: Pai, me dê sua bênção. E o filho que voltara pra casa morreu.&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DOMINGO: O cão dorme sobre o tapete. O homem se aproxima com uma das mãos às costas. A um metro do animal, puxa o facão e decepa a cabeça do husky. Os cães não têm sete vidas como os gatos, ele pensa. Os cães são como os homens. E pensando bem: uma vida já é um peso excessivo. O homem ciumento ainda não confia em ninguém. É uma manhã ensolarada, lá fora.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-7650144488422502527?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/7650144488422502527/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=7650144488422502527' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/7650144488422502527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/7650144488422502527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/03/oxigenada-segunda-feira-o-homem-mora-so.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SbBC0p7g-qI/AAAAAAAAAIg/p1j-uZJpTT8/s72-c/385px-Egon_Schiele_041%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-2192571920229129038</id><published>2009-02-26T09:56:00.001-08:00</published><updated>2009-02-26T10:10:05.449-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Saba4B533rI/AAAAAAAAAHQ/uANIorTDE3c/s1600-h/800px-Egon_Schiele_040%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5307169867021409970" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 102px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Saba4B533rI/AAAAAAAAAHQ/uANIorTDE3c/s200/800px-Egon_Schiele_040%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;LOIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas pensam que ele é como os personagens que cria. Mas erram. Ele gosta da sombra e da modéstia. Não ostenta suas conquistas. Quase ninguém o vê acompanhado. Exceto raros amigos que têm o dom de serem inconvenientes e que já o flagraram com loiras, negras, ruivas e morenas. Não precisa da aprovação nem da inveja dos outros. É um homem modesto apesar da enorme fama e do dinheiro que adquiriu. As pessoas infelizmente confundem isso com ingenuidade. Erram também nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua rotina: acorda às sete horas da manhã. Cinco quilômetros de corrida. Mil e quinhentos abdominais. Mil flexões. Halteres de dois quilos por vinte minutos. Tem um corpo privilegiado. Mas usa quase sempre um paletó preto ou agasalhos que escamoteiam seus músculos. Não tem boa saúde e bom condicionamento físico para impressionar ninguém. Seus livros não são de aventura e seus leitores projetam nele uma imagem máscula. É alto e assim transmite a impressão de que é magro. Mas não é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta ao seu prédio às nove horas da manhã, depois da ginástica. Passa calado pela portaria e pelo hall. Sobe pelo elevador. No corredor, enquanto se dirige ao apartamento, passa por ele uma mulher loira, sua vizinha. Não repara bem se ela é bonita ou não. Mas ela tem um olhar aliciante. Diante da porta, enfiando a chave no buraco da fechadura, enviesa o olhar. Percebe que antes da porta do elevador se fechar ela ainda o observa ostensivamente. Fecha a porta atrás de si. Toma um banho rápido. O olhar da mulher loira ainda o estimula. Volta a sair, mas não pra encontrá-la. Vai apanhar as correspondências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É noite. Não acende a lâmpada da sala. Não gosta que percebam que está em casa. Não gosta que saibam seu paradeiro. Mas sabe que, apesar disso, a vizinha aparecerá. Ainda naquela noite. A campainha toca. Ele abre a porta. O rosto dela, além dos olhos, é bonito. Posso usar seu telefone?, ela diz. Ele: Claro, entre. Ela vai à biblioteca onde fica o aparelho. Ele se senta na poltrona da sala. Está sorrindo e está satisfeito consigo mesmo. No bolso interno do seu paletó preto há alguns papéis que acaricia. Espera, sabe esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de dois minutos, a vizinha está na sala ao seu lado. Já ligou?, ele pergunta. Ela diz: Já sim. Muito obrigado. O agradecimento dela é interrompido por um barulho. Alguém bate na porta com violência. Ele se levanta da poltrona com calma. A mulher, temendo o que pode acontecer, faz uma cara compungida. Quem é?, pergunta ele. A voz do outro lado da porta diz: Vagabundo, safado, abre essa porta logo. Eu sei que minha mulher está aí com você. Abre logo, senão eu faço um escândalo. Eu vou matar os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A loira tapa o vermelho do rosto com as duas mãos espalmadas sobre a face. Ele nos descobriu, ela diz. Essa é a primeira vez que ela vem à casa dele, mas fala como se de fato fossem amantes. Vou abrir a porta, ele diz. Ela o segura. Ela grita: Ele vai matar nós dois. Ela vai à porta e diz: Amor, não é nada disso que você está pensando. O voz do marido: Eu vou matar você, vadia. Vou matar você, mas o cara eu vou deixar vivo. Só vou queimar as mãos e rasgar a língua dele. Quero ver ele fazer sucesso depois disso. Além do mais, eu vou destruir a reputação do safado. Escritorzinho ordinário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta os protege. Uma bala de calibre trinta e oito não a atravessa. Talvez uma de calibre quarenta e cinco consiga. Ele chega à porta, tirando a mulher do caminho. Ele pensa: Minha reputação não pode ser manchada e eu só consigo escrever a mão, usando lápis grafite. Ele fala: Amigo, o que você quer para poupar o escândalo e a vida da sua mulher? A voz atrás da porta diz: Dinheiro. Ele pergunta: Quanto? A voz continua: Quarenta e cinco mil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ironia, pensa ele. Quarenta e cinco? Está bem, vou apanhar o que tenho aqui em casa. No quarto, apanha o que foi buscar. Volta à sala. A mulher está sentada na poltrona, uma cara estranha, mas elucidativa. Ela sim é uma ordinária. Quanto a ele é um escritor dos bons, um grande ficcionista. Por que será que ela não levou isso em conta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega à porta, novamente. Amigo, você está aí?, pergunta. A voz diz: Sim, estou. Pela voz, o escritor percebe que o marido está bem próximo da porta. Encosta na porta o cano do revólver S&amp;amp;W, calibre quarenta e cinco. Atira. Após o tiro, ouve o barulho de um corpo caindo lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você fez?, ela pergunta. Grita e se levanta da cadeira. Ele diz: Veja você mesma. E abre a porta e lá está o corpo do chantagista. Estirado e morto. O que você fez?, ela repete, se agarrando, ajoelhada, ao corpo morto. Ele fecha a porta e ouve ela gritar que vai até a polícia. Vá, ele diz, para si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta ao quarto e guarda o revólver na gaveta, ao lado do Porte de Arma. Vai à biblioteca e pluga a tomada do telefone que a loira disse ter usado. Só agora o aparelho funcionaria. Depois se senta na poltrona da sala. Ouve música clássica. Observa os papéis que tira do bolso interno do paletó. Os mesmos que tirara da caixa de correio pela manhã: promissórias e títulos vencidos dos seus vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a polícia não chega, refaz o enredo: Para sanar as dívidas, o casal resolveu assaltá-lo. E ele agiu em legítima defesa. O único crime que cometeu fora arrombar a caixa de correio dos vizinhos, pela manhã. Mas este crime ele não revelará. Os policiais acreditarão. Tem fé em seu talento. Isso basta para o grande escritor que é.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-2192571920229129038?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/2192571920229129038/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=2192571920229129038' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/2192571920229129038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/2192571920229129038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/02/loira-as-pessoas-pensam-que-ele-e-como.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/Saba4B533rI/AAAAAAAAAHQ/uANIorTDE3c/s72-c/800px-Egon_Schiele_040%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-1949649949298081134</id><published>2009-02-19T09:56:00.000-08:00</published><updated>2009-02-19T10:11:33.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SZ2gCGkoW_I/AAAAAAAAAFw/xJ8xzbZ2K8A/s1600-h/morena.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304571894096747506" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 115px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SZ2gCGkoW_I/AAAAAAAAAFw/xJ8xzbZ2K8A/s200/morena.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;MORENA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;É um restaurante metido a sofisticado. Eles são parados à porta. O maître pergunta se têm reserva. O homem apesar de abespinhado responde que sim. Entram. Não estão de mãos dadas. Sentam-se. Como manda a praxe, o homem recebe do garçom o cardápio. Segura-o com a mão esquerda. A mulher à sua frente nota que o bronzeado do dedo anular dele já está uniforme. Isso ainda não ocorreu com sua mão esquerda que ainda guarda a marca da aliança ausente. Ele também nota isso quando passa a ela o cardápio. Ela sempre preferiu fazer seus próprios pedidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creme de abóbora com requeijão e uma alcachofra, ela pede. Fidalgo frito com salada, ele pede. Ambos concordam em dividir um vinho branco. Enquanto esperam o pedido, ela diz: Sua mão... e para. Ele estende a mão esquerda sobre a mesa. Entende a que ela se refere e diz: Tomei muito sol durante esse mês. Estive no pequeno sítio do meu pai. Por isso a barba adolescida e a pele queimada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Há alguns anos um filho dissera: Pai, vou me casar. O pai, impossibilitado de ocultar o desgosto, falara: Com aquela riquinha? O filho respondera: É a mulher de minha vida. O pai tirara o chapéu. Olhara ao longe o velho açude, ainda com muita água, apesar da seca, tão resistente quanto ele, e sentenciara: Então vá, mas acho que é a mulher de sua morte.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pedido chega rápido e limpo. Um bom atendimento. Há poucas pessoas no ambiente. Olhando bem, não há ninguém além deles. O homem é um cavalheiro. Espera que ela se sirva primeiro. A mulher demora muito. Examina, em silêncio, a colher. Começa a sorver o creme amarelo com salsas e cebolinhas verdes. Ele tira um naco do peixe que pedira. Mastiga levemente o alimento. Olha a soberba e a postura da sua acompanhante. O gosto do peixe o levaria a falar. Mas a mulher fala primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela: Está bom? Ele: Estou. Ela: Me refiro ao peixe. Ele: Sim, está. E o seu creme? Ela: Não muito. Um pouco enjoativo talvez. Você sempre gostou de peixe não é mesmo? Ele diz: Sim, meu pai, quando eu era criança, conseguia jogar a tarrafa a metros com a água do açude ao pescoço e ela caía sempre aberta. Na beira do açude, após a pescaria, fazíamos uma fogueira onde assávamos os peixes, depois de tratados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela diz: O que é tarrafa? Ele responde: Uma espécie de rede, com pequenos bolos de chumbo numa das extremidades. Ela pergunta: E açude? Ele responde: Um lago... um lago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novo silêncio. Ele bebe a taça de vinho e a de água, alternadamente. Ela bebe só o vinho. O homem lembra que em anos de casamento nunca a viu bebendo água. Ela abandona o creme de abóbora e traz a alcachofra para sua frente. O homem sempre se assustou com aquela flor cor-de-rosa e esverdeada. Com as mãos, ela tira uma por uma as folhas da alcachofra. Serve-se apenas do miolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Há muitos anos um garoto estivera, com uma caixa de margarina vazia, embaixo de um coqueiro pequeno. Seu pai lhe explicara algo importante, enquanto quebravam cocos miúdos: O tapuru do coco catolé é a melhor isca que existe. Hoje, o homem diante da ex-mulher não se atreve a falar isso. Teria que explicar o que é tapuru e o que é catolé.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o seu pai, como está?, ela pergunta, após devolver ao colo o guardanapo com o qual limpou os recantos de sua boca. O homem diz: Ele morreu. Ela: Quando? Onde? Ele: Logo que fui embora. No sítio mesmo. Ela: Mas então ainda estávamos juntos. Por que não avisaram a você? O homem diz: Ele pediu, no leito de morte, que não me avisassem. Ela: Entendo, entendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher dá a volta à mesa. Fica em pé ao lado do ex-marido. Três meses de separação fazem com que ela pela primeira vez na vida se humilhe. Ela diz ao ouvido dele: Eu me divirto sem você. Mas é impossível ser feliz sem você. Aquele cara foi um erro. Volta pra mim. Volta pra sua morena. Ele se levanta. Olha nos olhos da mulher morena e organiza os cabelos negros dela. E beijam-se. De olhos fechados, ele tenta lembrar a última imagem do pai. Não consegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mão esquerda do homem, a mesma sem a marca da aliança, está preso com força o guardanapo de pano. E a maldita faca prateada. Em prontidão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-1949649949298081134?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/1949649949298081134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=1949649949298081134' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/1949649949298081134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/1949649949298081134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/02/morena-e-um-restaurante-metido.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SZ2gCGkoW_I/AAAAAAAAAFw/xJ8xzbZ2K8A/s72-c/morena.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5876292928312153678.post-3833317635036469479</id><published>2009-02-12T06:44:00.000-08:00</published><updated>2009-02-12T11:47:32.062-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SZQ9OerQitI/AAAAAAAAADo/yGKtVr8buT0/s1600-h/a+ruiva.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5301929980283882194" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 112px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SZQ9OerQitI/AAAAAAAAADo/yGKtVr8buT0/s200/a+ruiva.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;RUIVA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Começo de noite. Faz calor. O homem está deitado na cama. Observa à sua frente uma mulher ruiva de costas para ele. É a única mulher que conheceu que sem roupa ficou mais bonita. Os curtos cabelos vermelhos brilham, embora estejam na penumbra. As costas, sem espinhas. Duas suaves concavidades acima dos glúteos. Coxas roliças, com posteriores sem ondulações ou nódulos de celulite. Panturrilhas perfeitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela: Pensou na minha proposta? A ruiva está encostada à janela, olhando ao longe o mar. Ele: Ainda não. Ela: Vai esperar até quando? Até estarmos envelhecidos e acabados? Ele: Já estamos velhos. Por dentro. E acabados. Ela: Você pode estar – com seus trinta? Ou trinta e um? – eu não. Ela, de fato, não. Nem velha. Nem acabada. Nem por dentro. Nem por fora. Ela: ...Como é que é, vai se acovardar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns anos de relacionamento entre eles. Ela sabe como conseguir as coisas. Basta ferir o orgulho machista dele. Ele: Não é covardia. Você precisa entender. O cara é meu irmão. Não é uma barata. Ela: Sim, ele é uma barata. A mulher dá as costas à janela. Seus olhos verdes encaram o homem. A janela, atrás dela, parece uma moldura de quadro. Ela parece uma pintura que extrapolou a moldura. Uma pintura perfeita. O olhar do homem escorre pela pintura nua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela começa a contar uma história: Eram quatro mulheres, as primeiras mulheres a atravessar a América do Norte numa viagem de automóvel. Tudo estava tranqüilo até que, no estado americano de Nevada, elas tomaram o grande medo. Seguiam por uma estrada deserta quando de repente, ao lado da estrada, surgiu um bando de índios yokuts armados com arcos e flechas e machadinhas e gritos. Corriam na direção delas. As mulheres de tão apavoradas sequer se mexeram. Os índios continuaram correndo. Neste momento atravessou a pista um grande roedor. Era este animal que os índios perseguiam. O roedor perseguido e os índios perseguidores passaram pelo automóvel sem darem a mínima. Depois, passado o medo, elas riram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher ruiva vem até a cama. Deita-se. Sussurra no ouvido dele: Os medos são erros que temos de desmascarar, agindo. E talvez você sorria no final. O homem sente o corpo dela sobre o seu. Não é a primeira vez. Seriam centenas? Milhares? Mas é sempre uma primeira vez. De perto, ela ainda é mais bonita. Amam-se. Ela diz antes de adormecer: Como posso amar tanto um covarde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ruiva está dormindo. Sua cabeça está recostada sobre o ombro esquerdo do homem. Sua mão esquerda está espalmada sobre o peito dele. O homem vê no dedo anular da mulher a área esbranquiçada da aliança ausente. Ela sempre tira a aliança antes de se encontrarem. Liberta-se do abraço adormecido dela. Sai da cama. Fica de pé ao lado do móvel por um longo tempo, pensativo. Abre a gaveta do criado-mudo. Lá está a arma que a mulher trouxera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem encosta a arma na têmpora da mulher mais linda do mundo, segundo ele. Ela tem o sono pesado. Pesado demais – eterno. O homem aciona o gatilho. Enquanto se senta na beira da cama, fala, baixo, para si: Sou mesmo um covarde. E não vou sorrir no final. E este é o final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem pensa: Gosto estranho este que tem o cano quente de uma arma.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5876292928312153678-3833317635036469479?l=mariorodriguesescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/feeds/3833317635036469479/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5876292928312153678&amp;postID=3833317635036469479' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/3833317635036469479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5876292928312153678/posts/default/3833317635036469479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mariorodriguesescritor.blogspot.com/2009/02/ruiva-comeco-de-noite.html' title=''/><author><name>Mário Rodrigues</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07490307082129947592</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='25' src='http://bp1.blogger.com/_hhV7dKPPLRQ/SI-EySLLJUI/AAAAAAAAABs/kTNUYpy3t_4/S220/bm4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hhV7dKPPLRQ/SZQ9OerQitI/AAAAAAAAADo/yGKtVr8buT0/s72-c/a+ruiva.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>12</thr:total></entry></feed>
