quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

LOIRA

As pessoas pensam que ele é como os personagens que cria. Mas erram. Ele gosta da sombra e da modéstia. Não ostenta suas conquistas. Quase ninguém o vê acompanhado. Exceto raros amigos que têm o dom de serem inconvenientes e que já o flagraram com loiras, negras, ruivas e morenas. Não precisa da aprovação nem da inveja dos outros. É um homem modesto apesar da enorme fama e do dinheiro que adquiriu. As pessoas infelizmente confundem isso com ingenuidade. Erram também nisso.

Sua rotina: acorda às sete horas da manhã. Cinco quilômetros de corrida. Mil e quinhentos abdominais. Mil flexões. Halteres de dois quilos por vinte minutos. Tem um corpo privilegiado. Mas usa quase sempre um paletó preto ou agasalhos que escamoteiam seus músculos. Não tem boa saúde e bom condicionamento físico para impressionar ninguém. Seus livros não são de aventura e seus leitores projetam nele uma imagem máscula. É alto e assim transmite a impressão de que é magro. Mas não é.

Volta ao seu prédio às nove horas da manhã, depois da ginástica. Passa calado pela portaria e pelo hall. Sobe pelo elevador. No corredor, enquanto se dirige ao apartamento, passa por ele uma mulher loira, sua vizinha. Não repara bem se ela é bonita ou não. Mas ela tem um olhar aliciante. Diante da porta, enfiando a chave no buraco da fechadura, enviesa o olhar. Percebe que antes da porta do elevador se fechar ela ainda o observa ostensivamente. Fecha a porta atrás de si. Toma um banho rápido. O olhar da mulher loira ainda o estimula. Volta a sair, mas não pra encontrá-la. Vai apanhar as correspondências.

É noite. Não acende a lâmpada da sala. Não gosta que percebam que está em casa. Não gosta que saibam seu paradeiro. Mas sabe que, apesar disso, a vizinha aparecerá. Ainda naquela noite. A campainha toca. Ele abre a porta. O rosto dela, além dos olhos, é bonito. Posso usar seu telefone?, ela diz. Ele: Claro, entre. Ela vai à biblioteca onde fica o aparelho. Ele se senta na poltrona da sala. Está sorrindo e está satisfeito consigo mesmo. No bolso interno do seu paletó preto há alguns papéis que acaricia. Espera, sabe esperar.

Depois de dois minutos, a vizinha está na sala ao seu lado. Já ligou?, ele pergunta. Ela diz: Já sim. Muito obrigado. O agradecimento dela é interrompido por um barulho. Alguém bate na porta com violência. Ele se levanta da poltrona com calma. A mulher, temendo o que pode acontecer, faz uma cara compungida. Quem é?, pergunta ele. A voz do outro lado da porta diz: Vagabundo, safado, abre essa porta logo. Eu sei que minha mulher está aí com você. Abre logo, senão eu faço um escândalo. Eu vou matar os dois.

A loira tapa o vermelho do rosto com as duas mãos espalmadas sobre a face. Ele nos descobriu, ela diz. Essa é a primeira vez que ela vem à casa dele, mas fala como se de fato fossem amantes. Vou abrir a porta, ele diz. Ela o segura. Ela grita: Ele vai matar nós dois. Ela vai à porta e diz: Amor, não é nada disso que você está pensando. O voz do marido: Eu vou matar você, vadia. Vou matar você, mas o cara eu vou deixar vivo. Só vou queimar as mãos e rasgar a língua dele. Quero ver ele fazer sucesso depois disso. Além do mais, eu vou destruir a reputação do safado. Escritorzinho ordinário.

A porta os protege. Uma bala de calibre trinta e oito não a atravessa. Talvez uma de calibre quarenta e cinco consiga. Ele chega à porta, tirando a mulher do caminho. Ele pensa: Minha reputação não pode ser manchada e eu só consigo escrever a mão, usando lápis grafite. Ele fala: Amigo, o que você quer para poupar o escândalo e a vida da sua mulher? A voz atrás da porta diz: Dinheiro. Ele pergunta: Quanto? A voz continua: Quarenta e cinco mil.

Que ironia, pensa ele. Quarenta e cinco? Está bem, vou apanhar o que tenho aqui em casa. No quarto, apanha o que foi buscar. Volta à sala. A mulher está sentada na poltrona, uma cara estranha, mas elucidativa. Ela sim é uma ordinária. Quanto a ele é um escritor dos bons, um grande ficcionista. Por que será que ela não levou isso em conta?

Chega à porta, novamente. Amigo, você está aí?, pergunta. A voz diz: Sim, estou. Pela voz, o escritor percebe que o marido está bem próximo da porta. Encosta na porta o cano do revólver S&W, calibre quarenta e cinco. Atira. Após o tiro, ouve o barulho de um corpo caindo lá fora.

O que você fez?, ela pergunta. Grita e se levanta da cadeira. Ele diz: Veja você mesma. E abre a porta e lá está o corpo do chantagista. Estirado e morto. O que você fez?, ela repete, se agarrando, ajoelhada, ao corpo morto. Ele fecha a porta e ouve ela gritar que vai até a polícia. Vá, ele diz, para si mesmo.

Volta ao quarto e guarda o revólver na gaveta, ao lado do Porte de Arma. Vai à biblioteca e pluga a tomada do telefone que a loira disse ter usado. Só agora o aparelho funcionaria. Depois se senta na poltrona da sala. Ouve música clássica. Observa os papéis que tira do bolso interno do paletó. Os mesmos que tirara da caixa de correio pela manhã: promissórias e títulos vencidos dos seus vizinhos.

Enquanto a polícia não chega, refaz o enredo: Para sanar as dívidas, o casal resolveu assaltá-lo. E ele agiu em legítima defesa. O único crime que cometeu fora arrombar a caixa de correio dos vizinhos, pela manhã. Mas este crime ele não revelará. Os policiais acreditarão. Tem fé em seu talento. Isso basta para o grande escritor que é.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

MORENA

É um restaurante metido a sofisticado. Eles são parados à porta. O maître pergunta se têm reserva. O homem apesar de abespinhado responde que sim. Entram. Não estão de mãos dadas. Sentam-se. Como manda a praxe, o homem recebe do garçom o cardápio. Segura-o com a mão esquerda. A mulher à sua frente nota que o bronzeado do dedo anular dele já está uniforme. Isso ainda não ocorreu com sua mão esquerda que ainda guarda a marca da aliança ausente. Ele também nota isso quando passa a ela o cardápio. Ela sempre preferiu fazer seus próprios pedidos.

Creme de abóbora com requeijão e uma alcachofra, ela pede. Fidalgo frito com salada, ele pede. Ambos concordam em dividir um vinho branco. Enquanto esperam o pedido, ela diz: Sua mão... e para. Ele estende a mão esquerda sobre a mesa. Entende a que ela se refere e diz: Tomei muito sol durante esse mês. Estive no pequeno sítio do meu pai. Por isso a barba adolescida e a pele queimada.

(Há alguns anos um filho dissera: Pai, vou me casar. O pai, impossibilitado de ocultar o desgosto, falara: Com aquela riquinha? O filho respondera: É a mulher de minha vida. O pai tirara o chapéu. Olhara ao longe o velho açude, ainda com muita água, apesar da seca, tão resistente quanto ele, e sentenciara: Então vá, mas acho que é a mulher de sua morte.)

O pedido chega rápido e limpo. Um bom atendimento. Há poucas pessoas no ambiente. Olhando bem, não há ninguém além deles. O homem é um cavalheiro. Espera que ela se sirva primeiro. A mulher demora muito. Examina, em silêncio, a colher. Começa a sorver o creme amarelo com salsas e cebolinhas verdes. Ele tira um naco do peixe que pedira. Mastiga levemente o alimento. Olha a soberba e a postura da sua acompanhante. O gosto do peixe o levaria a falar. Mas a mulher fala primeiro.

Ela: Está bom? Ele: Estou. Ela: Me refiro ao peixe. Ele: Sim, está. E o seu creme? Ela: Não muito. Um pouco enjoativo talvez. Você sempre gostou de peixe não é mesmo? Ele diz: Sim, meu pai, quando eu era criança, conseguia jogar a tarrafa a metros com a água do açude ao pescoço e ela caía sempre aberta. Na beira do açude, após a pescaria, fazíamos uma fogueira onde assávamos os peixes, depois de tratados.

Ela diz: O que é tarrafa? Ele responde: Uma espécie de rede, com pequenos bolos de chumbo numa das extremidades. Ela pergunta: E açude? Ele responde: Um lago... um lago.

Novo silêncio. Ele bebe a taça de vinho e a de água, alternadamente. Ela bebe só o vinho. O homem lembra que em anos de casamento nunca a viu bebendo água. Ela abandona o creme de abóbora e traz a alcachofra para sua frente. O homem sempre se assustou com aquela flor cor-de-rosa e esverdeada. Com as mãos, ela tira uma por uma as folhas da alcachofra. Serve-se apenas do miolo.

(Há muitos anos um garoto estivera, com uma caixa de margarina vazia, embaixo de um coqueiro pequeno. Seu pai lhe explicara algo importante, enquanto quebravam cocos miúdos: O tapuru do coco catolé é a melhor isca que existe. Hoje, o homem diante da ex-mulher não se atreve a falar isso. Teria que explicar o que é tapuru e o que é catolé.)

E o seu pai, como está?, ela pergunta, após devolver ao colo o guardanapo com o qual limpou os recantos de sua boca. O homem diz: Ele morreu. Ela: Quando? Onde? Ele: Logo que fui embora. No sítio mesmo. Ela: Mas então ainda estávamos juntos. Por que não avisaram a você? O homem diz: Ele pediu, no leito de morte, que não me avisassem. Ela: Entendo, entendo.

A mulher dá a volta à mesa. Fica em pé ao lado do ex-marido. Três meses de separação fazem com que ela pela primeira vez na vida se humilhe. Ela diz ao ouvido dele: Eu me divirto sem você. Mas é impossível ser feliz sem você. Aquele cara foi um erro. Volta pra mim. Volta pra sua morena. Ele se levanta. Olha nos olhos da mulher morena e organiza os cabelos negros dela. E beijam-se. De olhos fechados, ele tenta lembrar a última imagem do pai. Não consegue.

Na mão esquerda do homem, a mesma sem a marca da aliança, está preso com força o guardanapo de pano. E a maldita faca prateada. Em prontidão.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

RUIVA

Começo de noite. Faz calor. O homem está deitado na cama. Observa à sua frente uma mulher ruiva de costas para ele. É a única mulher que conheceu que sem roupa ficou mais bonita. Os curtos cabelos vermelhos brilham, embora estejam na penumbra. As costas, sem espinhas. Duas suaves concavidades acima dos glúteos. Coxas roliças, com posteriores sem ondulações ou nódulos de celulite. Panturrilhas perfeitas.

Ela: Pensou na minha proposta? A ruiva está encostada à janela, olhando ao longe o mar. Ele: Ainda não. Ela: Vai esperar até quando? Até estarmos envelhecidos e acabados? Ele: Já estamos velhos. Por dentro. E acabados. Ela: Você pode estar – com seus trinta? Ou trinta e um? – eu não. Ela, de fato, não. Nem velha. Nem acabada. Nem por dentro. Nem por fora. Ela: ...Como é que é, vai se acovardar?

Alguns anos de relacionamento entre eles. Ela sabe como conseguir as coisas. Basta ferir o orgulho machista dele. Ele: Não é covardia. Você precisa entender. O cara é meu irmão. Não é uma barata. Ela: Sim, ele é uma barata. A mulher dá as costas à janela. Seus olhos verdes encaram o homem. A janela, atrás dela, parece uma moldura de quadro. Ela parece uma pintura que extrapolou a moldura. Uma pintura perfeita. O olhar do homem escorre pela pintura nua.

Ela começa a contar uma história: Eram quatro mulheres, as primeiras mulheres a atravessar a América do Norte numa viagem de automóvel. Tudo estava tranqüilo até que, no estado americano de Nevada, elas tomaram o grande medo. Seguiam por uma estrada deserta quando de repente, ao lado da estrada, surgiu um bando de índios yokuts armados com arcos e flechas e machadinhas e gritos. Corriam na direção delas. As mulheres de tão apavoradas sequer se mexeram. Os índios continuaram correndo. Neste momento atravessou a pista um grande roedor. Era este animal que os índios perseguiam. O roedor perseguido e os índios perseguidores passaram pelo automóvel sem darem a mínima. Depois, passado o medo, elas riram.

A mulher ruiva vem até a cama. Deita-se. Sussurra no ouvido dele: Os medos são erros que temos de desmascarar, agindo. E talvez você sorria no final. O homem sente o corpo dela sobre o seu. Não é a primeira vez. Seriam centenas? Milhares? Mas é sempre uma primeira vez. De perto, ela ainda é mais bonita. Amam-se. Ela diz antes de adormecer: Como posso amar tanto um covarde?

A ruiva está dormindo. Sua cabeça está recostada sobre o ombro esquerdo do homem. Sua mão esquerda está espalmada sobre o peito dele. O homem vê no dedo anular da mulher a área esbranquiçada da aliança ausente. Ela sempre tira a aliança antes de se encontrarem. Liberta-se do abraço adormecido dela. Sai da cama. Fica de pé ao lado do móvel por um longo tempo, pensativo. Abre a gaveta do criado-mudo. Lá está a arma que a mulher trouxera.

O homem encosta a arma na têmpora da mulher mais linda do mundo, segundo ele. Ela tem o sono pesado. Pesado demais – eterno. O homem aciona o gatilho. Enquanto se senta na beira da cama, fala, baixo, para si: Sou mesmo um covarde. E não vou sorrir no final. E este é o final.

O homem pensa: Gosto estranho este que tem o cano quente de uma arma.