LOIRAAs pessoas pensam que ele é como os personagens que cria. Mas erram. Ele gosta da sombra e da modéstia. Não ostenta suas conquistas. Quase ninguém o vê acompanhado. Exceto raros amigos que têm o dom de serem inconvenientes e que já o flagraram com loiras, negras, ruivas e morenas. Não precisa da aprovação nem da inveja dos outros. É um homem modesto apesar da enorme fama e do dinheiro que adquiriu. As pessoas infelizmente confundem isso com ingenuidade. Erram também nisso.
Sua rotina: acorda às sete horas da manhã. Cinco quilômetros de corrida. Mil e quinhentos abdominais. Mil flexões. Halteres de dois quilos por vinte minutos. Tem um corpo privilegiado. Mas usa quase sempre um paletó preto ou agasalhos que escamoteiam seus músculos. Não tem boa saúde e bom condicionamento físico para impressionar ninguém. Seus livros não são de aventura e seus leitores projetam nele uma imagem máscula. É alto e assim transmite a impressão de que é magro. Mas não é.
Volta ao seu prédio às nove horas da manhã, depois da ginástica. Passa calado pela portaria e pelo hall. Sobe pelo elevador. No corredor, enquanto se dirige ao apartamento, passa por ele uma mulher loira, sua vizinha. Não repara bem se ela é bonita ou não. Mas ela tem um olhar aliciante. Diante da porta, enfiando a chave no buraco da fechadura, enviesa o olhar. Percebe que antes da porta do elevador se fechar ela ainda o observa ostensivamente. Fecha a porta atrás de si. Toma um banho rápido. O olhar da mulher loira ainda o estimula. Volta a sair, mas não pra encontrá-la. Vai apanhar as correspondências.
É noite. Não acende a lâmpada da sala. Não gosta que percebam que está em casa. Não gosta que saibam seu paradeiro. Mas sabe que, apesar disso, a vizinha aparecerá. Ainda naquela noite. A campainha toca. Ele abre a porta. O rosto dela, além dos olhos, é bonito. Posso usar seu telefone?, ela diz. Ele: Claro, entre. Ela vai à biblioteca onde fica o aparelho. Ele se senta na poltrona da sala. Está sorrindo e está satisfeito consigo mesmo. No bolso interno do seu paletó preto há alguns papéis que acaricia. Espera, sabe esperar.
Depois de dois minutos, a vizinha está na sala ao seu lado. Já ligou?, ele pergunta. Ela diz: Já sim. Muito obrigado. O agradecimento dela é interrompido por um barulho. Alguém bate na porta com violência. Ele se levanta da poltrona com calma. A mulher, temendo o que pode acontecer, faz uma cara compungida. Quem é?, pergunta ele. A voz do outro lado da porta diz: Vagabundo, safado, abre essa porta logo. Eu sei que minha mulher está aí com você. Abre logo, senão eu faço um escândalo. Eu vou matar os dois.
A loira tapa o vermelho do rosto com as duas mãos espalmadas sobre a face. Ele nos descobriu, ela diz. Essa é a primeira vez que ela vem à casa dele, mas fala como se de fato fossem amantes. Vou abrir a porta, ele diz. Ela o segura. Ela grita: Ele vai matar nós dois. Ela vai à porta e diz: Amor, não é nada disso que você está pensando. O voz do marido: Eu vou matar você, vadia. Vou matar você, mas o cara eu vou deixar vivo. Só vou queimar as mãos e rasgar a língua dele. Quero ver ele fazer sucesso depois disso. Além do mais, eu vou destruir a reputação do safado. Escritorzinho ordinário.
A porta os protege. Uma bala de calibre trinta e oito não a atravessa. Talvez uma de calibre quarenta e cinco consiga. Ele chega à porta, tirando a mulher do caminho. Ele pensa: Minha reputação não pode ser manchada e eu só consigo escrever a mão, usando lápis grafite. Ele fala: Amigo, o que você quer para poupar o escândalo e a vida da sua mulher? A voz atrás da porta diz: Dinheiro. Ele pergunta: Quanto? A voz continua: Quarenta e cinco mil.
Que ironia, pensa ele. Quarenta e cinco? Está bem, vou apanhar o que tenho aqui em casa. No quarto, apanha o que foi buscar. Volta à sala. A mulher está sentada na poltrona, uma cara estranha, mas elucidativa. Ela sim é uma ordinária. Quanto a ele é um escritor dos bons, um grande ficcionista. Por que será que ela não levou isso em conta?
Chega à porta, novamente. Amigo, você está aí?, pergunta. A voz diz: Sim, estou. Pela voz, o escritor percebe que o marido está bem próximo da porta. Encosta na porta o cano do revólver S&W, calibre quarenta e cinco. Atira. Após o tiro, ouve o barulho de um corpo caindo lá fora.
O que você fez?, ela pergunta. Grita e se levanta da cadeira. Ele diz: Veja você mesma. E abre a porta e lá está o corpo do chantagista. Estirado e morto. O que você fez?, ela repete, se agarrando, ajoelhada, ao corpo morto. Ele fecha a porta e ouve ela gritar que vai até a polícia. Vá, ele diz, para si mesmo.
Volta ao quarto e guarda o revólver na gaveta, ao lado do Porte de Arma. Vai à biblioteca e pluga a tomada do telefone que a loira disse ter usado. Só agora o aparelho funcionaria. Depois se senta na poltrona da sala. Ouve música clássica. Observa os papéis que tira do bolso interno do paletó. Os mesmos que tirara da caixa de correio pela manhã: promissórias e títulos vencidos dos seus vizinhos.
Enquanto a polícia não chega, refaz o enredo: Para sanar as dívidas, o casal resolveu assaltá-lo. E ele agiu em legítima defesa. O único crime que cometeu fora arrombar a caixa de correio dos vizinhos, pela manhã. Mas este crime ele não revelará. Os policiais acreditarão. Tem fé em seu talento. Isso basta para o grande escritor que é.
