quinta-feira, 16 de abril de 2009

A VENDEDORA DE AZEITONAS
(10º conto)

Contratante estava num bar. Sozinho. À sua frente havia um envelope grande e pardo. E um copo. Tomava uns goles avulsos de uma bebida qualquer. Possuía o ar dos que esperam. Esse ar era peculiar nele. Sempre o possuíra. Embora em momentos como aquele aparecia mais acentuadamente.

Uma mulher vestindo um moletom preto e longo se aproximou da mesa. Os cabelos estavam ocultados pelo capuz do moletom. O rosto maquiado intensamente e as mãos pálidas de cutículas bem-tratadas eram as únicas partes do corpo que se revelavam. Sentou-se à frente do Contratante.

MULHER: Aceito.

CONTRATANTE: Aí está a arma.

MULHER: E a numeração?

CONTRATANTE: Está riscada. Não há perigo algum.

A mulher de moletom preto apanhou o envelope grande e pardo.

MULHER: E o pagamento?

CONTRATANTE: O pagamento também está no envelope. A primeira parcela.

MULHER: E a segunda?

CONTRATANTE: Será depositada depois que o serviço for efetuado com sucesso.

MULHER: Tudo bem. É a praxe, disse a mulher.

Ela se levantou e se dirigiu à saída do bar.

CONTRATANTE: Um momento. Você não vai conferir o dinheiro?

MULHER: Não. Quem intermediou o nosso encontro garantiu que você é de confiança.

CONTRATANTE: Em meia-hora, o Grande Astro estará saindo de casa.

MULHER: É quando eu o matarei.

A vendedora de azeitonas – como se intitulava, em homenagem a seu ex-namorado – guardou o envelope grande e pardo no bolso interno do moletom. Não era a primeira vez que trabalharia pra clientes como aquele. Saiu à rua. O vento frio do inverno fustigou seu rosto maquiado. Os cabelos continuavam sob o capuz.

Mário Rodrigues – O Contratante – acabou de consumir sua bebida. Esperou diante da mesa vazia aproximadamente vinte e cinco minutos. Refletia sobre o que estava fazendo. O porquê daquilo tudo? Algo tinha que ser feito. Depois disso, apanhou seu celular e discou um número.

Alô. É da delegacia? Eu queria fazer uma denúncia anônima. Sim, sim, é bastante urgente. É um assassinato que vai acontecer. De quem? Do Grande Astro. Soube que uma mulher de moletom preto vai matá-lo hoje. Assim que o artista pôr os pés na rua. Espero que os senhores evitem esse crime. Confio na eficiência da polícia.

Levantou-se da mesa. Pagou a conta ao velho quase surdo que atendia aos fregueses tão raros. Jogou o celular pré-pago no cesto de lixo num dos recantos do bar. Caminhou pela rua fria. Era ainda um homem feito de esperas. Esperava que a morte do Grande Astro se consumasse, que a vendedora de azeitonas agisse.

A polícia chegaria bem no instante em que a assassina profissional estivesse tentando fugir. Vasculhariam sua roupa e achariam o envelope. E dentro do envelope grande e pardo: encontrariam... Mário Rodrigues se encaminhou à rua onde a vítima morava. Viu policiais e ambulâncias e repórteres. Mário Rodrigues, o escritor, sorriu.

Na manhã seguinte, em todos os jornais, em todas as tevês, em toda a internet, estará a notícia surpreendente, exceto para o escritor: A assassina do Grande Astro, no momento do assassinato, que a polícia não conseguira evitar, portava um livro dentro de um envelope pardo e grande. Este livro é hoje o mais comentado em todas as mídias e o mais procurado em todas as livrarias: O LIVRO DAS DEZ MULHERES, de Mário Rodrigues.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

GRISALHA

São duas mulheres. Uma mais jovem do que a outra. Estão de mãos dadas. O forte vento muda de lugar as dunas onde elas pisam. Os pequenos grãos de areia em movimento constante agridem suas pernas sensíveis. Caminham e sabem para onde ir.

Ele era lindo, diz a mais velha. O homem mais lindo que conheci ou conhecerei.

O rosto era perfeito? O corpo sarado?, pergunta a mais jovem.

Não. Era uma beleza que se revelava no seu humor, na sua generosidade.

Que bonito.

E no seu bom coração, no carinho por mim. No olhar.

No início?, pergunta a mais jovem.

Não apenas no início, sempre. Ele nunca deixara de me escutar, de se interessar por meus quadros, por mim.

Então?

Foi a insegurança quem puxou o gatilho, ele dissera.

Insegurança?

Insegurança que eu mesma havia causado, segundo ele.

Era um desculpa da parte dele? Uma espécie de racionalização?

Não, acho que não. Ele era ciumento. Mas também tive culpa. Incitei, em algumas ocasiões, o ciúme dele. Precisava me afirmar, ser cortejada, assediada, desejada, entende? No fundo, eu o amava mais que tudo. Todos aqueles outros homens, que de mim se aproximavam, ricocheteavam, batiam, mas nunca, nunca!, se acoplavam. Não representaram absolutamente nada pra mim. Mas éramos jovens, com duas décadas de vida não se sabe absolutamente nada. Ainda mais em se tratando do amor.

Um longo silêncio entre as mulheres. Céu azul. Areia por todos os lados. Nenhum ser humano além delas. O lugar teria eco? Querem saber, mas têm vergonha de gritar. Caminham. Sobem e descem dunas sem se importar com o sol.

Mas ele sabia disso?, pergunta a mais jovem.

Claro. Sempre deixei claro que o amava, que o queria. Que ele era o máximo.

Mas ele percebia?

Não. Não entendia. Me policiava. E sofria muito.

E você?

Eu não sofria, achei que ele sempre estaria ali, ao meu lado.

O fim, quando foi?

Eu ainda não sabia que estava grávida. Não tínhamos necessariamente brigado, falávamos normalmente, então ele se virou para mim e disse, olhando nos meus olhos: Você vai se arrepender.

Qual foi sua reação?

Não prestei atenção. Pra mim, as palavras não tinham as significâncias e ressonâncias que tinham pra ele. Naquela frase simples, ele estava dizendo adeus. Mas dizia mais, dizia que eu não dera o valor que ele merecia, que não prestara atenção, que o subestimei, que o vilipendiei, porém só perceberia tudo isso, e a certeza disso, depois de muito tempo.

E depois?

Depois ele parou de escrever. Casou-se com uma menina comum, que passaria suas roupas, que limparia sua casa, que o esperaria com um jantar saboroso no fim do dia, que seria, se não fosse estéril, a mãe de seus filhos e que seria, hoje posso confessar, feliz, porque era impossível pra uma mulher não ser feliz ao lado dele. Feliz numa intensidade da qual jamais sequer me aproximei. Mas ela morreu jovem, eles viveram juntos dez anos. Fui ao funeral dela. Foi a única morta que vi que não tinha cara de morta, mas de plenitude.

Outro silêncio entre as mulheres. No côncavo formado por um arredor de dunas está a lagoa. Águas azuis.

E depois do enterro? Vocês se falaram?

Sim, depois do enterro nos falamos. Uma conversa que esperara por dez anos. Perguntei, num canto, se ele ainda me amava como antes. Se assim fosse, queria ficar com ele, aceitaria qualquer exigência. Olhou-me profunda e lentamente, não respondeu nada. Depois soube que ele mudara-se para outro país, ou cidade longínqua, não sei bem. Fez rápida fortuna. Os inimigos e invejosos diziam que ele enriquecera traficando drogas no atacado. Não sei se era verdade.

Houve um último encontro?

Houve. Você já devia ter uns quinze anos. Ele estava lindo, como sempre. Seu corpo era ainda mais rijo e definido do que quando recém-saíra da adolescência. Veio espontaneamente, sem avisos. Havia uma empáfia angustiante que chegava a humilhar o interlocutor na sua voz de então. Mais uma vez usou apenas uma frase, com todas as ressonâncias e significâncias: Você se arrependeu?

A mulher mais jovem perguntou: E você?

Eu disse a ele: Claro que não me arrependi. Como eu devo ter parecido patética a ele. Como eu não tinha me arrependido se ainda lembrava da sua última frase? Se chorei, todos os dias daqueles quinze anos de intervalo, porque o havia perdido e porque todos os homens que conhecera, antes e depois dele, eram uns imbecis. Naquele dia, ele me mostrou um envelope. Dentro deste havia uma relação de todas as suas posses materiais, inúmeras, convertidas para o meu nome. Ele disse: Agora tenho o direito à tua exclusividade? E foi embora pra sempre e como doeu. Dói.

As mulheres param diante da lagoa no meio das dunas.

Este era o lugar preferido dele, diz a mulher mais velha.

Tinha mesmo bom gosto. É o lugar mais lindo que já vi.

Mergulhe, a água é morna e límpida. Ele amava mergulhar.

Enquanto a filha toma o banho, a mãe lembra mais um encontro. O verdadeiro último encontro: uma encomenda que chegara pelos Correios. A mulher mais velha tira da sua mochila a encomenda: um recipiente cheio de cinzas.

A mulher mais velha derrama com calma as cinzas dele no lugar que ele desejaria. No lugar que ele mais amou sobre a terra. No lugar que, embora ele jamais soubesse, gerou a única filha que deixara no mundo.

O que é isso, mãe?, pergunta a mulher jovem, de dentro d’água.

Nada filha. Só poeira. Só poeira.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

CABROCHA

Sai todos os dias às sete horas e quinze minutos da manhã. Mas antes prepara a filhinha para a escola e o almoço do marido. Pega um ônibus apinhado de gente. A maioria ela conhece por nome. Faz o mesmo itinerário todos os dias.

É balconista de uma loja de autopeças. Passa o dia recebendo cantadas grosseiras e engraçadas e quase-sedutoras dos muitos sujeitos que vão até lá para aparelharem seus carros novos ou em ótimo estado de conservação.

Durante o almoço, tomado na própria loja em virtude da lonjura entre o trabalho e sua residência, pensa no marido que ficara em casa. O olhar num ponto longínquo. Mastiga pedaços de carne cheios de nervos.

O marido também acorda cedo. Tem como responsabilidade levar a filhinha à escola. Depois volta para casa e fica vendo TV até chegar a hora do almoço quando esquenta a comida preparada pela esposa.

Antes, nos primeiros seis meses de desemprego, passava também os dias fora procurando trabalho. Só voltava à noite. Cansado. Até o dia em que não saiu. Foi vencido e enfraqueceu e perdeu o amor próprio. Desistiu.

No fim do expediente, ao olhar no calendário, ela faz as contas. Um ano e dois meses e vinte e oito dias de desemprego dele. Imagina que como acontece nos últimos meses irá encontrar o marido na calçada de casa.

Ele estará sem camisa e fumando um cigarro barato. Seu olhar estará opaco. Ela irá fazer o jantar e convidá-lo. Jantarão em silêncio. Verão TV. Dormirão na mesma cama, mas não farão amor. Ele diz que não tem o direito de possui-la já que é sustentado por ela.

Ela entra na rua estreita ou beco onde mora. Se surpreende sem a constante presença do marido na calçada. Alguma coisa acontecera. Seu coração resignado parece bater mais forte ou talvez seja só o cansaço da subida.

Em casa uma surpresa: uma noite só deles. O homem havia feito o jantar e levado a filhinha à casa da avó materna. Alguma coisa acontecera, ela pensa. O homem há muito tempo não ri daquele jeito. A mesa está decorada.

Uma tigela com um frango assado. Dois copos graúdos e entre eles uma embalagem de dois litros de coca-cola. Uma tigela menor com vinagrete. Outra tigela com farofa. No centro da mesa há dois pires.

Num deles há uma vela amarela e no outro há uma vela azul. Dois pratos emborcados e talheres. O marido risca um fósforo e acende as velas quando a esposa entra. As velas ele ganhara dela no aniversário de primeiro mês de namoro.

Anexo a cada vela vinha sua mensagem esotérica. Vela Azul: Significa a verdade, a tranqüilidade, a compreensão. Está associada ao planeta Júpiter, ao trabalho e aos negócios.

Vela Amarela: Significa a vida, a alegria, o entusiasmo, o vigor mental, o poder. Está associada ao Sol, aos relacionamentos de dar e receber, aguça o intelecto. Ela sabe o significado das velas.

Algo acontecera naquele dia. Ela tem agora certeza. Mas quer manter o suspense. Falaram banalidades durante o jantar. Lembraram um tempo antigo quando foram, senão felizes, satisfeitos ao menos.

Ele apaga as velas quando acaba o jantar. A sala inicialmente escura é aos poucos dominada por uma fraca luz cúmplice vinda da rua. Ele a abraça. Neste abraço a mulher sente o antigo vigor do seu homem.

Sabe que o desemprego é capaz de inibir a libido, o que acontecera nos últimos meses, mas jamais eliminá-la. Ela pensa em perguntar ao ver a energia dele recuperada. Mas não faz isso. Não quer tirar do marido o prazer de falar.

O abraço sôfrego e o beijo forte fazem o casal cair imperfeitamente sobre o sofá. Ela quase faz a pergunta. Carícias e afagos ousados. Estão quase despidos. Ele sem camisa e ela só com as roupas de baixo.

A mulher pergunta: Você arranjou um emprego? Ele cessa as carícias. Afrouxa o abraço. Sai de cima de sua esposa. Deixa-a interrogativa e arfando sobre o sofá furado. O homem se retira de casa.

A mulher enxuga as lágrimas com as peças de roupas que apanha uma a uma pelo chão da sala. Sente-se encurvada também interiormente. Ele não vai para muito longe. Fica sentado num dos degraus da calçada de casa.

O homem havia durante o dia matado um rato gigante que invadira o beco – e por isso recebido uma ovação de velhas aposentadas e crianças remelentas – aquilo fora suficiente para ele se sentir novamente útil. Porém continua desempregado.

Como há um ano e dois meses e vinte e oito dias. Também ele contabiliza diariamente sua agonia. Uma linda lua redonda domina o céu. Mas para aquele homem é apenas um buraco branco no meio da escuridão celeste.