(10º conto)
Contratante estava num bar. Sozinho. À sua frente havia um envelope grande e pardo. E um copo. Tomava uns goles avulsos de uma bebida qualquer. Possuía o ar dos que esperam. Esse ar era peculiar nele. Sempre o possuíra. Embora em momentos como aquele aparecia mais acentuadamente.
Uma mulher vestindo um moletom preto e longo se aproximou da mesa. Os cabelos estavam ocultados pelo capuz do moletom. O rosto maquiado intensamente e as mãos pálidas de cutículas bem-tratadas eram as únicas partes do corpo que se revelavam. Sentou-se à frente do Contratante.
MULHER: Aceito.
CONTRATANTE: Aí está a arma.
MULHER: E a numeração?
CONTRATANTE: Está riscada. Não há perigo algum.
A mulher de moletom preto apanhou o envelope grande e pardo.
MULHER: E o pagamento?
CONTRATANTE: O pagamento também está no envelope. A primeira parcela.
MULHER: E a segunda?
CONTRATANTE: Será depositada depois que o serviço for efetuado com sucesso.
MULHER: Tudo bem. É a praxe, disse a mulher.
Ela se levantou e se dirigiu à saída do bar.
CONTRATANTE: Um momento. Você não vai conferir o dinheiro?
MULHER: Não. Quem intermediou o nosso encontro garantiu que você é de confiança.
CONTRATANTE: Em meia-hora, o Grande Astro estará saindo de casa.
MULHER: É quando eu o matarei.
A vendedora de azeitonas – como se intitulava, em homenagem a seu ex-namorado – guardou o envelope grande e pardo no bolso interno do moletom. Não era a primeira vez que trabalharia pra clientes como aquele. Saiu à rua. O vento frio do inverno fustigou seu rosto maquiado. Os cabelos continuavam sob o capuz.
Mário Rodrigues – O Contratante – acabou de consumir sua bebida. Esperou diante da mesa vazia aproximadamente vinte e cinco minutos. Refletia sobre o que estava fazendo. O porquê daquilo tudo? Algo tinha que ser feito. Depois disso, apanhou seu celular e discou um número.
Alô. É da delegacia? Eu queria fazer uma denúncia anônima. Sim, sim, é bastante urgente. É um assassinato que vai acontecer. De quem? Do Grande Astro. Soube que uma mulher de moletom preto vai matá-lo hoje. Assim que o artista pôr os pés na rua. Espero que os senhores evitem esse crime. Confio na eficiência da polícia.
Levantou-se da mesa. Pagou a conta ao velho quase surdo que atendia aos fregueses tão raros. Jogou o celular pré-pago no cesto de lixo num dos recantos do bar. Caminhou pela rua fria. Era ainda um homem feito de esperas. Esperava que a morte do Grande Astro se consumasse, que a vendedora de azeitonas agisse.
A polícia chegaria bem no instante em que a assassina profissional estivesse tentando fugir. Vasculhariam sua roupa e achariam o envelope. E dentro do envelope grande e pardo: encontrariam... Mário Rodrigues se encaminhou à rua onde a vítima morava. Viu policiais e ambulâncias e repórteres. Mário Rodrigues, o escritor, sorriu.
Contratante estava num bar. Sozinho. À sua frente havia um envelope grande e pardo. E um copo. Tomava uns goles avulsos de uma bebida qualquer. Possuía o ar dos que esperam. Esse ar era peculiar nele. Sempre o possuíra. Embora em momentos como aquele aparecia mais acentuadamente.
Uma mulher vestindo um moletom preto e longo se aproximou da mesa. Os cabelos estavam ocultados pelo capuz do moletom. O rosto maquiado intensamente e as mãos pálidas de cutículas bem-tratadas eram as únicas partes do corpo que se revelavam. Sentou-se à frente do Contratante.
MULHER: Aceito.
CONTRATANTE: Aí está a arma.
MULHER: E a numeração?
CONTRATANTE: Está riscada. Não há perigo algum.
A mulher de moletom preto apanhou o envelope grande e pardo.
MULHER: E o pagamento?
CONTRATANTE: O pagamento também está no envelope. A primeira parcela.
MULHER: E a segunda?
CONTRATANTE: Será depositada depois que o serviço for efetuado com sucesso.
MULHER: Tudo bem. É a praxe, disse a mulher.
Ela se levantou e se dirigiu à saída do bar.
CONTRATANTE: Um momento. Você não vai conferir o dinheiro?
MULHER: Não. Quem intermediou o nosso encontro garantiu que você é de confiança.
CONTRATANTE: Em meia-hora, o Grande Astro estará saindo de casa.
MULHER: É quando eu o matarei.
A vendedora de azeitonas – como se intitulava, em homenagem a seu ex-namorado – guardou o envelope grande e pardo no bolso interno do moletom. Não era a primeira vez que trabalharia pra clientes como aquele. Saiu à rua. O vento frio do inverno fustigou seu rosto maquiado. Os cabelos continuavam sob o capuz.
Mário Rodrigues – O Contratante – acabou de consumir sua bebida. Esperou diante da mesa vazia aproximadamente vinte e cinco minutos. Refletia sobre o que estava fazendo. O porquê daquilo tudo? Algo tinha que ser feito. Depois disso, apanhou seu celular e discou um número.
Alô. É da delegacia? Eu queria fazer uma denúncia anônima. Sim, sim, é bastante urgente. É um assassinato que vai acontecer. De quem? Do Grande Astro. Soube que uma mulher de moletom preto vai matá-lo hoje. Assim que o artista pôr os pés na rua. Espero que os senhores evitem esse crime. Confio na eficiência da polícia.
Levantou-se da mesa. Pagou a conta ao velho quase surdo que atendia aos fregueses tão raros. Jogou o celular pré-pago no cesto de lixo num dos recantos do bar. Caminhou pela rua fria. Era ainda um homem feito de esperas. Esperava que a morte do Grande Astro se consumasse, que a vendedora de azeitonas agisse.
A polícia chegaria bem no instante em que a assassina profissional estivesse tentando fugir. Vasculhariam sua roupa e achariam o envelope. E dentro do envelope grande e pardo: encontrariam... Mário Rodrigues se encaminhou à rua onde a vítima morava. Viu policiais e ambulâncias e repórteres. Mário Rodrigues, o escritor, sorriu.
Na manhã seguinte, em todos os jornais, em todas as tevês, em toda a internet, estará a notícia surpreendente, exceto para o escritor: A assassina do Grande Astro, no momento do assassinato, que a polícia não conseguira evitar, portava um livro dentro de um envelope pardo e grande. Este livro é hoje o mais comentado em todas as mídias e o mais procurado em todas as livrarias: O LIVRO DAS DEZ MULHERES, de Mário Rodrigues.

