É um restaurante metido a sofisticado. Eles são parados à porta. O maître pergunta se têm reserva. O homem apesar de abespinhado responde que sim. Entram. Não estão de mãos dadas. Sentam-se. Como manda a praxe, o homem recebe do garçom o cardápio. Segura-o com a mão esquerda. A mulher à sua frente nota que o bronzeado do dedo anular dele já está uniforme. Isso ainda não ocorreu com sua mão esquerda que ainda guarda a marca da aliança ausente. Ele também nota isso quando passa a ela o cardápio. Ela sempre preferiu fazer seus próprios pedidos.
Creme de abóbora com requeijão e uma alcachofra, ela pede. Fidalgo frito com salada, ele pede. Ambos concordam em dividir um vinho branco. Enquanto esperam o pedido, ela diz: Sua mão... e para. Ele estende a mão esquerda sobre a mesa. Entende a que ela se refere e diz: Tomei muito sol durante esse mês. Estive no pequeno sítio do meu pai. Por isso a barba adolescida e a pele queimada.
(Há alguns anos um filho dissera: Pai, vou me casar. O pai, impossibilitado de ocultar o desgosto, falara: Com aquela riquinha? O filho respondera: É a mulher de minha vida. O pai tirara o chapéu. Olhara ao longe o velho açude, ainda com muita água, apesar da seca, tão resistente quanto ele, e sentenciara: Então vá, mas acho que é a mulher de sua morte.)
O pedido chega rápido e limpo. Um bom atendimento. Há poucas pessoas no ambiente. Olhando bem, não há ninguém além deles. O homem é um cavalheiro. Espera que ela se sirva primeiro. A mulher demora muito. Examina, em silêncio, a colher. Começa a sorver o creme amarelo com salsas e cebolinhas verdes. Ele tira um naco do peixe que pedira. Mastiga levemente o alimento. Olha a soberba e a postura da sua acompanhante. O gosto do peixe o levaria a falar. Mas a mulher fala primeiro.
Ela: Está bom? Ele: Estou. Ela: Me refiro ao peixe. Ele: Sim, está. E o seu creme? Ela: Não muito. Um pouco enjoativo talvez. Você sempre gostou de peixe não é mesmo? Ele diz: Sim, meu pai, quando eu era criança, conseguia jogar a tarrafa a metros com a água do açude ao pescoço e ela caía sempre aberta. Na beira do açude, após a pescaria, fazíamos uma fogueira onde assávamos os peixes, depois de tratados.
Ela diz: O que é tarrafa? Ele responde: Uma espécie de rede, com pequenos bolos de chumbo numa das extremidades. Ela pergunta: E açude? Ele responde: Um lago... um lago.
Novo silêncio. Ele bebe a taça de vinho e a de água, alternadamente. Ela bebe só o vinho. O homem lembra que em anos de casamento nunca a viu bebendo água. Ela abandona o creme de abóbora e traz a alcachofra para sua frente. O homem sempre se assustou com aquela flor cor-de-rosa e esverdeada. Com as mãos, ela tira uma por uma as folhas da alcachofra. Serve-se apenas do miolo.
(Há muitos anos um garoto estivera, com uma caixa de margarina vazia, embaixo de um coqueiro pequeno. Seu pai lhe explicara algo importante, enquanto quebravam cocos miúdos: O tapuru do coco catolé é a melhor isca que existe. Hoje, o homem diante da ex-mulher não se atreve a falar isso. Teria que explicar o que é tapuru e o que é catolé.)
E o seu pai, como está?, ela pergunta, após devolver ao colo o guardanapo com o qual limpou os recantos de sua boca. O homem diz: Ele morreu. Ela: Quando? Onde? Ele: Logo que fui embora. No sítio mesmo. Ela: Mas então ainda estávamos juntos. Por que não avisaram a você? O homem diz: Ele pediu, no leito de morte, que não me avisassem. Ela: Entendo, entendo.
A mulher dá a volta à mesa. Fica em pé ao lado do ex-marido. Três meses de separação fazem com que ela pela primeira vez na vida se humilhe. Ela diz ao ouvido dele: Eu me divirto sem você. Mas é impossível ser feliz sem você. Aquele cara foi um erro. Volta pra mim. Volta pra sua morena. Ele se levanta. Olha nos olhos da mulher morena e organiza os cabelos negros dela. E beijam-se. De olhos fechados, ele tenta lembrar a última imagem do pai. Não consegue.
Na mão esquerda do homem, a mesma sem a marca da aliança, está preso com força o guardanapo de pano. E a maldita faca prateada. Em prontidão.

11 comentários:
Meninoooooo! Que é isso?!!!
Como sempre, mt bom!!
Haja talento viu! ;D
Abraços,
Amanda
P.S: Obrigada pelo presente que foi a prova hj ;D
Também adorei o conto!
Faço minhas as palavras de Amanda.
Espero que tenha um bom carnaval.
conto moderno e agente decide o final. Senão com certeze o seu final ia ser com a maldita faca em ação.
Parebéns!
Nossa é supreendente o poder que as morenas possuem! Sempre deixam o 'desejo' na mão,não é mesmo?
Adorei.
Assim meu 1° comentário aqui tinha de ser com esse título 'MORENA *-* Surpreendente ... Sempre com seus finais macabros :o Mais como se diz toda boa história termina em morte(tragédiia) O Sr. gosta disso néé ? =x Como sempre ótimo conto *-* !
CHOCADÉRRIMA ;O
O homem é meio desequilibrado!
Como assim, no meio do beijo ele pensa em matar? skapkspa
Isso é um serial killer e ela não sabe HAHAH ;*
Ficou muito legal!!!
Parabéns Mario!
Abraços
Ficou muito legal Mario!!!
Parabéns!!!!!!
Abraços,
Icaro Luan
Mário,
Adorei o blog está muitoo bom.
Visitarei sempre que poder.
Parabéns!
:)
Fantástico :)
beijo.
Nossa senhora, que trágico! Mas excelente!
Mas me diz uma coisa Mário... porque você ta falando mal das mulheres hein?? HUAHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUAH
Brincadeira... mas ta msm!
Saudades da sua aula...
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