Começo de noite. Faz calor. O homem está deitado na cama. Observa à sua frente uma mulher ruiva de costas para ele. É a única mulher que conheceu que sem roupa ficou mais bonita. Os curtos cabelos vermelhos brilham, embora estejam na penumbra. As costas, sem espinhas. Duas suaves concavidades acima dos glúteos. Coxas roliças, com posteriores sem ondulações ou nódulos de celulite. Panturrilhas perfeitas.
Ela: Pensou na minha proposta? A ruiva está encostada à janela, olhando ao longe o mar. Ele: Ainda não. Ela: Vai esperar até quando? Até estarmos envelhecidos e acabados? Ele: Já estamos velhos. Por dentro. E acabados. Ela: Você pode estar – com seus trinta? Ou trinta e um? – eu não. Ela, de fato, não. Nem velha. Nem acabada. Nem por dentro. Nem por fora. Ela: ...Como é que é, vai se acovardar?
Alguns anos de relacionamento entre eles. Ela sabe como conseguir as coisas. Basta ferir o orgulho machista dele. Ele: Não é covardia. Você precisa entender. O cara é meu irmão. Não é uma barata. Ela: Sim, ele é uma barata. A mulher dá as costas à janela. Seus olhos verdes encaram o homem. A janela, atrás dela, parece uma moldura de quadro. Ela parece uma pintura que extrapolou a moldura. Uma pintura perfeita. O olhar do homem escorre pela pintura nua.
Ela começa a contar uma história: Eram quatro mulheres, as primeiras mulheres a atravessar a América do Norte numa viagem de automóvel. Tudo estava tranqüilo até que, no estado americano de Nevada, elas tomaram o grande medo. Seguiam por uma estrada deserta quando de repente, ao lado da estrada, surgiu um bando de índios yokuts armados com arcos e flechas e machadinhas e gritos. Corriam na direção delas. As mulheres de tão apavoradas sequer se mexeram. Os índios continuaram correndo. Neste momento atravessou a pista um grande roedor. Era este animal que os índios perseguiam. O roedor perseguido e os índios perseguidores passaram pelo automóvel sem darem a mínima. Depois, passado o medo, elas riram.
A mulher ruiva vem até a cama. Deita-se. Sussurra no ouvido dele: Os medos são erros que temos de desmascarar, agindo. E talvez você sorria no final. O homem sente o corpo dela sobre o seu. Não é a primeira vez. Seriam centenas? Milhares? Mas é sempre uma primeira vez. De perto, ela ainda é mais bonita. Amam-se. Ela diz antes de adormecer: Como posso amar tanto um covarde?
A ruiva está dormindo. Sua cabeça está recostada sobre o ombro esquerdo do homem. Sua mão esquerda está espalmada sobre o peito dele. O homem vê no dedo anular da mulher a área esbranquiçada da aliança ausente. Ela sempre tira a aliança antes de se encontrarem. Liberta-se do abraço adormecido dela. Sai da cama. Fica de pé ao lado do móvel por um longo tempo, pensativo. Abre a gaveta do criado-mudo. Lá está a arma que a mulher trouxera.
O homem encosta a arma na têmpora da mulher mais linda do mundo, segundo ele. Ela tem o sono pesado. Pesado demais – eterno. O homem aciona o gatilho. Enquanto se senta na beira da cama, fala, baixo, para si: Sou mesmo um covarde. E não vou sorrir no final. E este é o final.
O homem pensa: Gosto estranho este que tem o cano quente de uma arma.

12 comentários:
Mas prof°, a mulher morreu? Que mente assassina a sua, HSIAHSUIA!
E ela ainda era casada MELDELS ~~
Bom, por enquanto, amei seu blog. Está bem arrumadinho e fofinho ;)
Bêijos ♥
Confesso que até agora estou surpresa com tamanha criatividade,e me perguntando que tipo de amor era aquele! Mas de uma coisa tenho certeza,esses amores arriscados são os melhores.
Só que infelizmente o final nem sempre nos reserva boas risadas.
Beijo.
Luanny Porto
Cada vez mais surpreendente. Leve essa para a sala também, sem dúvidas vão gostar. ;)
beeijos
Vamos gostar meesmo ;DD
Como sempre, sem palavras pra comentar, apenas aplausos!
Abraços!
=D
E eu QUASE tirei um dez só por vir akê, vou fazer isso mais vezes HEHEHE ;*
Gostei muito do conto.
Já estava cansado dos blogs que não tem conteúdo,
até agora só conheço dois com um bom recheio,
um é esse e o outro é o meu^^
Da uma passadinha lá:
www.easypc.zip.net
Só não repara nos erros de português,já vai ser covardia né.
Parabéns pelo blog. Ansioso por novos contos!
Um conto muito criativo e interesante!!!!!
Muito bom !!!!!
Abraços,
Icaro Luan
acho q quem morreu foi ele e nao ela...
ou foram ambos?
rapaz, vou pensar nisso... e ver se encontro uma resposta rsrs
E como sempre no final: - tire suas proprias conclusões. KKKKK
Muito bom; Parabéns :)
beijo :*
"O homem pensa: Gosto estranho este que tem o cano quente de uma arma."
Acho que qem morreu foi o homem .
Bom,surpreendente crôniica . Amei !
Abraços .
Este conto me faz remeter a certas noites que nos parecem tão longas. Os personagens estão nus (pelo menos a ruiva), e em dado mometo estiveram excitados. Entretanto, certos fantasmas na mente do homem não permitem que aja com a naturalidade do libido. Podemos pensar que a maioria dos homens "pegadores", na verdade criam esta fama para esquecer coisas que não querem lembrar (quem sabe esquecer que não conseguem ser tão desenvoltos diante de quem trealmente amam).
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