ÍNDIAAh o amor. Esse desconhecido que todos julgam conhecer. O amor que é bom e não quer o mal. O amor que é um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê. Que é a obra suprema diante da qual todas as outras são meros esboços. Que é ouvir e entender estrelas. O amor que é grande e cabe no breve espaço de um beijo – o amor que é um lixo e fede a mijo. Tudo o que fez foi por amor. Toda a busca e todo o medo. Não matou ninguém. Na verdade, salvou vidas. Inclusive a de Lua. Ele a amava, mas a tribo à qual pertencia – a das peles escuras e dos trabalhos braçais – não permitia que ele chegasse sequer perto da amada. Observava-a de longe e por isso a chamava de Lua. Inacessível no céu escuro de seus desejos.
Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.
Primeiro: ele descobrira aquela gordura vegetal que causaria a terrível disenteria que se não tratada seria fatal. Naquele lugar o alimento básico era a mandioca que por si só quase não tem sabor. E também são insípidos os legumes tropicais aquosos – berinjela, maxixe, quiabo – que eram muito consumidos entre eles. Por isso, ao longo dos séculos aquela culinária se apropriou de estimulantes às papilas gustativas como a pimenta-do-reino, cardamomo e a canela. E foi melhorado sensivelmente o sabor dos seus pratos. Ele simplesmente substituiu em várias ocas, usando disfarce de índia, essas especiarias pela gordura vegetal que descobrira.
Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.
Em pouco tempo, os primeiros casos de disenteria surgiram. Vários foram os tratamentos experimentados. Mas nenhum surtia efeito. A doença se alastrava entre os poderosos e os primeiros casos já beiravam a morte. É certo que ele pensou – num momento de fraqueza espiritual do qual se envergonha – em deixar que alguns morressem para se vingar dos preconceitos e cerceamentos a que foi submetido durante as duas décadas de sua vida. Mas esta é uma história de amor, não de vingança. No terceiro dia da moléstia, apresentou-se no centro da ocara: Possuo a cura para a assanhada moléstia, ele dissera. Sequer o ouviram. Ele julgara na sua inocência que ignorariam essa história de tribo, que pediriam a cura a ele, que ele os curaria, que como prêmio o Cacique cederia a mão de sua filha: Lua. Nada disso aconteceu. Expulsaram-no.
Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.
Uma semana depois, trouxeram-no de volta. Lua, também contaminada, padecia sensivelmente e os pajés haviam se desesperançado. Nada dera certo. Ele foi colocado no centro da ocara. Um tacape mirava sua cabeça, foi quando o Cacique o questionou: Tens realmente a cura? Ele disse: Sim. Disse o Cacique: Então, fala. Ele não sabe com qual coragem, mas falou pra toda a taba: Temendo a morte o homem manda sua tribo às favas, por que me chamas agora se há sete dias me ignoravas? O Cacique disse: Fizemos mal. O Cacique tinha a humildade do pai que quer salvar a filha. Pedes o que quiseres como expiação pelo nosso mal-feito, mas, por favor, indicai-nos a cura. Ele pediu ao Cacique: Quero tua filha. E o Cacique disse: Se conseguires mantê-la neste mundo, tens o direito de desposá-la.
Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.
Ele disse ao cacique: Vossa humildade de agora é bem aceita, no entanto, é preciso que se extinga de todo o orgulho em vossos corações. Por isso a cura para a moléstia exigirá que caciques e pajés e pessoas doentes se ajoelhem à beira do Grande Penhasco e – com o rosto voltado pra terra – lambam aquele chão desprezado. Esse gesto catártico deve se repetir por várias vezes. Até que chegue ao espírito da Grande Mãe Terra. Da qual todos somos filhos. Diante de quem todos somos iguais. E ela proporcionará a cura. (Todo esse discurso foi feito com uma retórica perfeita – impondo a ênfase própria das pajelanças e dos curandeiros – estes embusteiros nos quais ele nunca acreditou.)
Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.
Com o tempo, seguindo à risca suas instruções, toda a tribo se curou. E ele casou com Lua. Rompeu o preconceito de tribos. E mais: se o Cacique morrer antes de nascer um neto homem, ele será o Cacique. Mas ele não está feliz. Lua nunca o amou e embora ela não fale – pois a hierarquia familiar não permite – ele viu sempre presente no olhar dela, durante todos esses anos, e ainda vê, o nojo e o ódio direcionados à sua pessoa. Eu preferiria ter morrido, é que dizem os olhos de Lua. Ele confessa a si mesmo: Está arrependido. Maldito foi aquele dia em que descobriu que o solo do Grande Penhasco continha caulim – a argila branca comumente usada em alguns remédios contra diarréia. Está arrependido. Era melhor não ter existido do que conviver com o nojo de Lua e com a idiotice e a ignorância da sua tribo. Está arrependido de ter salvado Lua e todas aquelas pessoas.
Era o que ele imaginava naquele momento de indecisão.
Ele se decidiu: Poderia voltar a usar o velho ardil e matar todo mundo. Um genocídio. Mas prefere procurar um novo amor. Afinal, esta é uma história de amor, não de vingança.

7 comentários:
"O amor que é grande e cabe no breve espaço de um beijo".
Muito bom. Afinal"essa é uma historia de amor"
Parabéns! Professor.
Ao Apaixonado: o amor não se impõe mas ele se conquista.
É isso aí Hitler (Jorge)
Depois quem tiver curioso porque o chamei de Hitler, perguntem a ele.
o Führer do povo e do Reich alemão.
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"Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer"
Só faltou isso pra ficar mais poético! =D
Gostei mt- tirando a parte do desprezo da menina, fiquei com pena do índio!
Abraço!
P.S.: O bolo tava ótimo, brigada! ;D
Mesmo se eu não tivesse lido,teria amado do mesmo jeito!
O porque,você sabe não é?!HAHAHA.
Sério estou até sem palavras,foi tudo tão lindo e ao mesmo tempo tão triste.Ele salvou a Lua e ela desprezou o seu amor.
Ele não merecia isso.Afinal,"tudo o que ele fez foi por amor".
Sem dúvidas eu o amaria por toda minha vida!!
Obrigada por fazer das minhas tardes sem graça,as melhores!
Vou sentir falta disso.
"Quando eu for embora para bem distante e chegar a hora de dizer adeus."
(Trecho da música:Índia.)
P.S:Fico agradecida pelo titulo!
Professor o coitado do índio.
Mais é assim, tem gente que tem o que merece, quem sabe ele não merecia esse despreso, quem sabe a índia não merecia o sofrimento de te-lo como marido.
Nunca se sabe, vai que os dois mereciam esse castigo...
Adorei.
Preimeira vez que eu to aqui e adorei.
Nossa que certo 'ar' de revolta e de peso que ele levou em sua vida, mas ele devia ter imaginado que isso um dia pudesse acontecer pois nunca existiu amor verdadeiro da parte de Lua por ele :/
abraço.
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