quinta-feira, 12 de março de 2009

JAPONESA

Ele se sente triste ao entrar no amplo apartamento onde moram. O homem e a esposa como de costume haviam acabado de deixar a moça bonita - secretária dela - em casa. Derreado no sofá, observa a esposa se dirigir ao quarto na penumbra.

Não acende as luzes da sala. Quando a claridade lateral proveniente do quarto desaparece - com o fechar da porta - ele se vê engolfado pela escuridão. E pela solidão. Sente uma forte vontade de chorar. Mas não chora. Se fosse mais fraco ou mais forte talvez chorasse.

Pensa na moça pra quem ele e a esposa deram carona. Depois voltaram pra casa deles. No carro deles. Em pouco tempo estará no quarto deles. Na cama deles. E no final nada era realmente deles. O casal não se amava mais, mas fazia amor.

Levanta-se do sofá. Vai à cozinha. Acende a lâmpada. A lâmpada fluorescente aumenta ainda mais sua sensação de solidão. É possível ouvir o som mínimo dos starters e do motor da geladeira. Mexe no eletrodoméstico.

Senta-se à mesa. Num prato à sua frente: maçã, queijo minas, laranja mexerica. A parte superior da maçã sem o talo: o umbigo da moça bonita. O queijo minas: brancura e frutescência da sua jovem pele. Por parecer um pouco com os lábios da moça, ele escolhe primeiro a mexerica. Cada gomo é um lábio e como tal sugado à exaustão.

Finda o lanche noturno. Vê cascas e bagaços. Sobras. Nada o surpreende. Já sabe que, afinal, mesmo se escolher a moça bonita o fim será: breve saciedade e cascas e bagaços. Sabe que - como todos os outros humanos sobre a terra - não tem ninguém: mesmo asfixiado por amigos e parentes e familiares e amantes.

A mulher o espera sem perfumes sem lingeries especiais com sonolência no quarto. Ele continua com o pensamento triste. Sabe também que sua escolha - se é que venha a acontecer - não representará nada.

O que escolher – a rotina ou a moça bonita, a convenção ou a aventura, a convivência pacífica ou o sexo selvagem, a respeitabilidade ou o exibicionismo – fará dele um sujeito só e infeliz. Pensa na fala da secretária, sua amante: Você quer continuar com aquela japonesa ridícula? Faça alguma coisa por nós!

No banheiro do quarto, observa por minutos uma corda fina de náilon azul. A corda está guardada há meses pra um objetivo especial. Ele chega a acariciá-la com os dedos. Treina no seu próprio pescoço. Talvez nesta noite, ele pensa.

Depois ele abre uma caixa que esconde da esposa. Lê rótulos: Uprima, Levitra, Cialis, Viagra. Escolhe o Levitra. Embalagem de um comprimido. Sua ação tem início em pouco mais de quinze minutos. O efeito é de seis a oito horas.

Não é uma necessidade física – ele tem só quarenta e poucos anos – é uma necessidade psicológica. Vê a esposa na cama sob lençóis. Os olhos puxados quase adormecidos. Ele lembra do possível efeito colateral: terá dor de cabeça amanhã. Mas isso ele já tem de sobra.

4 comentários:

Amanda Oliveira disse...

O.o

Sem muito o que comentar.
O que escolher-...-fará dele um sujeito só e infeli
Fiquei até com pena do cara...
=/

Abraço!

Luanny Porto disse...

Noossa,quantas dúvidas.
Se ele não a ama mais,então porque fica com ela? Só para dizer a todos que é "casado"?


"O que escolher fará dele um sujeito infeliz..."

Pelo que vi ele já é infeliz,então se ele acreditava que podia ter algum tipo de aventura com a tal secretária,não seria melhor viver essa aventura?!
Ele seria infeliz de qualquer jeito,ora. Então que fosse com essa 'ilusão' amorosa...

Mas...gostei,gostei!
Espero ansiosamente próxima quinta.

Jorge Barros disse...

Muito bom. Dúvidas , dúvidas e dúvidas.

Talvez um dilema. Porém com uma simples resposta: vale a pena? Se ele pudesse responder isso ele com certeza resoveria o caso.

Parabéns.

Anônimo disse...

Que sujeito mais infeliz :/. Aquelas velhas duvidas que sempre estão presente em suas narrativas. Mais uma vez mandou super bem :)

beijo.