quinta-feira, 5 de março de 2009

OXIGENADA

SEGUNDA-FEIRA: O homem mora só desde o acontecimento. Não atende telefonemas e não recebe visitas. Mas hoje – ao receber as compras que fizera pela internet – deixa a porta aberta. Enquanto paga ao motoboy, o husky entra em sua casa. É a primeira visita depois de meses. Mesmo assim o cão é expulso. Depois, o homem começa a acondicionar no armário os miojos e os pacotes. Droga, grita, Droga. Droga, eu não pedi biscoitos recheados. Atira o maldito biscoito pela janela. Os vidros fechados impedem o pacote de cair à rua. O impacto trinca o vidro. Ele conclui o serviço: de um soco espatifa o vidro.

(No passado uma mulher de cabelos oxigenados dissera: Amor, não vou mais comer biscoitos recheados. Não quero ter celulites e nem engordar. Você nunca vai me trocar por outra, não é?)

TERÇA-FEIRA: Quando o homem acorda está na sala. Um curativo mal-feito envolve sua mão. Ainda está um pouco bêbado. Olha pro pacote esfacelado de biscoitos ao pé da parede até ser vencido pelo cansaço e pelo uísque, de novo. Acorda – pela segunda vez – com o husky branco e cinza lambendo seu curativo. Ele expulsa mais uma vez o cão. Nunca fora um homem dado às reflexões. Mas enquanto o mercúrio-cromo arde na ferida no extremo inferior de seus dedos manuais, ele pensa, ajudado pela cor rubra do medicamento.

(No passado ele dissera ao filho que tinha com a mulher oxigenada: Você vai estudar na capital. Não importa se são cinco anos. Eu mando dinheiro todo mês. Filho meu precisa crescer, virar homem, viver sozinho. Sair da barra da saia da mãe.)

QUARTA-FEIRA: Sair da barra da saia da mãe. Já faz vinte e quatro horas que ele pensou nessa frase. O ardor no peito dele provocado pela frase continua. É um ardor maior do que o causado pelo mercúrio-cromo. O husky resgata o homem de seus pensamentos resvalando em suas canelas. O homem olha a janela quebrada. Preciso mandar consertar o vidro pra esse cão parar de me importunar. Depois disso, pela primeira vez, olha os olhos do animal. O olhar terrivelmente azul-claro brilha. Mais um olhar azul-claro em sua vida.

(No passado a mulher oxigenada dissera, rindo: Para, amor. É claro que não são lentes. São naturais. Todas as mulheres de minha família têm olhos dessa cor.)

QUINTA-FEIRA: O homem e o husky comem miojos. Você precisa de um nome, diz o homem. Por um descuido dá ao cão um nome masculino comum. O efeito dentro do homem é devastador. Expulsa o husky de casa mais uma vez. Com pregos prende um papelão onde outrora, na janela, havia o vidro que ele quebrara com socos. Não quer mais ser importunado por aquele animal cretino.

(No passado a mulher oxigenada conversara com o homem: É seu único filho. E você mal o conhece. O homem dissera: Eu não vou perder meu tempo com um moleque molenga daqueles. A mulher oxigenada gritara: É um absurdo. Cinco anos sem vê-lo. O homem concluíra: Por isso quis que ele estudasse tão longe. Pra vê-lo menos.)

SEXTA-FEIRA: O husky não aparece.

(No passado a mulher oxigenada tivera outra conversa com o homem. Ela: Sempre ausente. Você nunca está comigo. Sempre viajando. Ele: Tenho que trabalhar. Ela: Só pensa em juntar dinheiro e se esquece de mim. Provavelmente se satisfazendo com outras mulheres por aí. Ele: Sou homem, tenho esse direito. Ela: E eu? Ele: Eu te mataria, desgraçada, se você ao menos abraçasse outro homem. E repetira: Eu te mataria, desgraçada, se você ao menos abraçasse outro homem.)

SÁBADO: O homem arranca o papelão à janela e esta volta a ficar aberta. Coloca um prato com duas sardinhas frescas no meio da sala. Depois de muito tempo, acordara cedo e fora à feira comprar aqueles peixes salgados. Ficou vendo o cão se lambuzar com a refeição. Tenho outro presente pra você. Joga um osso sintético pro husky. O animal morde o novo brinquedo. O homem se aproxima e faz um carinho no dorso do cão e chora enquanto o cão adormece.

(Um dia, no passado, voltando pra casa mais cedo, ele viu sua mulher abraçada a outro homem. Foram seis tiros à queima-roupa, três pra cada. Ele ainda ria, quando o outro homem, apenas um rapaz de vinte e poucos anos, estendeu a mão e disse: Pai, me dê sua bênção. E o filho que voltara pra casa morreu.)

DOMINGO: O cão dorme sobre o tapete. O homem se aproxima com uma das mãos às costas. A um metro do animal, puxa o facão e decepa a cabeça do husky. Os cães não têm sete vidas como os gatos, ele pensa. Os cães são como os homens. E pensando bem: uma vida já é um peso excessivo. O homem ciumento ainda não confia em ninguém. É uma manhã ensolarada, lá fora.

12 comentários:

Jorge Barros disse...

Realmente esses sao melhores!

A surpresa que ele dá no final é de parar a respireção(sem brincadeiras)

Muitos PArabéns!

Jorge Barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

O cara ciumento não um mito !
Matar o filho o cachorro .Ô homem sem coração ...
Meu Deus ... Oxigenada foi uma ótima idéia (ou melhor ideia)Amanda ^^


-Lorena

Paulo Renato disse...

Matar a mulher até vai,
o filho eu aceito, mas,
o pobre do husky ja é maldade!

Concordo com Amanda, oxigenada foi a melhor. ^^

Amanda Oliveira disse...

O.o
Calma que eu Tô recuperando o fôlego...
(Por pouco, o sr não conseguiu... faltou só um pouquinho!) ;D

Mt bom!

ansiosa por quinta-feira!
=D
Abraços e bom fim-de-semana!

Anônimo disse...

Como consegues fazer um história tão bem bolada como esta hein?! Supreendente e ao mesmo tempo ótima.
Você e sua "paixão" por colocar morte em suas histórias KKKKKKK.

beijo.

Jéssica Borges.

Anônimo disse...

Conforme solicitado...Aqui estou :D
Realmente surpreendente (pra variar) kkkkkkkkkkkkkkkk

Gostei muito,parabéns
beeijos

Luanny Porto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luanny Porto disse...

Devo lhe confessar que por amor tomamos atitudes impensadas.Mas acho que matar foge um pouco dos meus principios.(Pelo menos por enquanto!)
Mas uma vez tenho que lhe dizer que... "Isto é um primor de arte!"

E...

"Contra as armas do ciúme tão mortais,a submissão às vezes é um abrigo." (8)
Lembra não é?!

Anônimo disse...

Caaaaaara, ele matou a oxigenada, amor dele, o husky, o filho. Que cara ciumento ;O
Mas ficou muuuuito legal mesmo,
se depender do escritor, este blog vai bombar mais ainda :D
Parabéns, MIL parabéns!

Anônimo disse...

Ciumento naum o garoto.
Parebéns, me surpreendendo a cada dia.

Nathália disse...

Muito² boa a história!

Parabéns!