quinta-feira, 2 de abril de 2009

CABROCHA

Sai todos os dias às sete horas e quinze minutos da manhã. Mas antes prepara a filhinha para a escola e o almoço do marido. Pega um ônibus apinhado de gente. A maioria ela conhece por nome. Faz o mesmo itinerário todos os dias.

É balconista de uma loja de autopeças. Passa o dia recebendo cantadas grosseiras e engraçadas e quase-sedutoras dos muitos sujeitos que vão até lá para aparelharem seus carros novos ou em ótimo estado de conservação.

Durante o almoço, tomado na própria loja em virtude da lonjura entre o trabalho e sua residência, pensa no marido que ficara em casa. O olhar num ponto longínquo. Mastiga pedaços de carne cheios de nervos.

O marido também acorda cedo. Tem como responsabilidade levar a filhinha à escola. Depois volta para casa e fica vendo TV até chegar a hora do almoço quando esquenta a comida preparada pela esposa.

Antes, nos primeiros seis meses de desemprego, passava também os dias fora procurando trabalho. Só voltava à noite. Cansado. Até o dia em que não saiu. Foi vencido e enfraqueceu e perdeu o amor próprio. Desistiu.

No fim do expediente, ao olhar no calendário, ela faz as contas. Um ano e dois meses e vinte e oito dias de desemprego dele. Imagina que como acontece nos últimos meses irá encontrar o marido na calçada de casa.

Ele estará sem camisa e fumando um cigarro barato. Seu olhar estará opaco. Ela irá fazer o jantar e convidá-lo. Jantarão em silêncio. Verão TV. Dormirão na mesma cama, mas não farão amor. Ele diz que não tem o direito de possui-la já que é sustentado por ela.

Ela entra na rua estreita ou beco onde mora. Se surpreende sem a constante presença do marido na calçada. Alguma coisa acontecera. Seu coração resignado parece bater mais forte ou talvez seja só o cansaço da subida.

Em casa uma surpresa: uma noite só deles. O homem havia feito o jantar e levado a filhinha à casa da avó materna. Alguma coisa acontecera, ela pensa. O homem há muito tempo não ri daquele jeito. A mesa está decorada.

Uma tigela com um frango assado. Dois copos graúdos e entre eles uma embalagem de dois litros de coca-cola. Uma tigela menor com vinagrete. Outra tigela com farofa. No centro da mesa há dois pires.

Num deles há uma vela amarela e no outro há uma vela azul. Dois pratos emborcados e talheres. O marido risca um fósforo e acende as velas quando a esposa entra. As velas ele ganhara dela no aniversário de primeiro mês de namoro.

Anexo a cada vela vinha sua mensagem esotérica. Vela Azul: Significa a verdade, a tranqüilidade, a compreensão. Está associada ao planeta Júpiter, ao trabalho e aos negócios.

Vela Amarela: Significa a vida, a alegria, o entusiasmo, o vigor mental, o poder. Está associada ao Sol, aos relacionamentos de dar e receber, aguça o intelecto. Ela sabe o significado das velas.

Algo acontecera naquele dia. Ela tem agora certeza. Mas quer manter o suspense. Falaram banalidades durante o jantar. Lembraram um tempo antigo quando foram, senão felizes, satisfeitos ao menos.

Ele apaga as velas quando acaba o jantar. A sala inicialmente escura é aos poucos dominada por uma fraca luz cúmplice vinda da rua. Ele a abraça. Neste abraço a mulher sente o antigo vigor do seu homem.

Sabe que o desemprego é capaz de inibir a libido, o que acontecera nos últimos meses, mas jamais eliminá-la. Ela pensa em perguntar ao ver a energia dele recuperada. Mas não faz isso. Não quer tirar do marido o prazer de falar.

O abraço sôfrego e o beijo forte fazem o casal cair imperfeitamente sobre o sofá. Ela quase faz a pergunta. Carícias e afagos ousados. Estão quase despidos. Ele sem camisa e ela só com as roupas de baixo.

A mulher pergunta: Você arranjou um emprego? Ele cessa as carícias. Afrouxa o abraço. Sai de cima de sua esposa. Deixa-a interrogativa e arfando sobre o sofá furado. O homem se retira de casa.

A mulher enxuga as lágrimas com as peças de roupas que apanha uma a uma pelo chão da sala. Sente-se encurvada também interiormente. Ele não vai para muito longe. Fica sentado num dos degraus da calçada de casa.

O homem havia durante o dia matado um rato gigante que invadira o beco – e por isso recebido uma ovação de velhas aposentadas e crianças remelentas – aquilo fora suficiente para ele se sentir novamente útil. Porém continua desempregado.

Como há um ano e dois meses e vinte e oito dias. Também ele contabiliza diariamente sua agonia. Uma linda lua redonda domina o céu. Mas para aquele homem é apenas um buraco branco no meio da escuridão celeste.

6 comentários:

Luanny Porto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luanny Porto disse...

Devo confessar que eu não ia conseguir dormir se não me redimisse de algum jeito, em relação ao último comentário que postei.

Mas,não é só por isso que estou aqui,é que realmente esse seu conto merece destaque...
"Ele diz que não tem o direito de possui-la já que é sustentando por ela."
Então isso é um dever de toda mulher que é sustentada pelo homem?
Nossa que pensamento estranho o seu,mas que admiro.
Beijo.

P.S: Não conhecia esse seu lado tão sentimentalista,por isso resolvi fazer uma 'brincadeirinha'.
Mas não esperava que fosse tão ruim assim. Me desculpe.
Primeira e última vez!

Jorge Barros disse...

"Foi vencido e enfraqueceu e perdeu o amor próprio. Desistiu." ISSO PODE GERAR CONSEQUENCIAS graves.

Foi o que aconteceu, ele se resdescobrira, porém a mulher não tinha como saber o que tinha ocorrido....


Parabéns

Amanda Oliveira disse...

...
Mt bom, mas meio triste (como sempre).
=/
Discordo do machismo do marido, mas sei que isso não se limita de jeito nenhum a ficção.
Fiquei com pena da mulher...
=(
Mas fazer o que?! Eu é que já devia estar acostumada com esses finais!

Bom final de semana!
Abraço!

Luiz disse...

"Faz o mesmo itinerário todos os dias."
Lembrei de uma música acolá...
como é mesmo?
Mariana alguma coisa...
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
um post excepcional...
admito!
percbi algumas mensagens camufladas - não sei se existem mesmo - mas eu encontrei!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
sobre o desemprego...
bem, já é de praxe ver isso na TV relacionado à crise... então. No coments!
sobre ele a ovação...
acho que isso serviu pra ele perceber que nem tudo estava perdido...
q ainda existe uma esperança... e q, de um modo ingênuo e meio que "sem querer", a mulher meio que quebrou ou ofuscou, não de propósito, essa nova esperança dele... e ele então retornou pro submundo de breu dele...
achei triste...
mas reflexivo...
só podia ser Màrio mesmo..
kkkkkkkkkkkk
congratulations!!

Anônimo disse...

Nossa ! O homem está "vazio" e triste. A mulher 'curiosa' e arrependida pelo o que fez. Talvez perguntando-se para que qe ela foi fazer aquela pergunta em uma situação e hora inexata .
"Uma linda lua redonda domina o céu. Mas para aquele homem é apenas um buraco branco no meio da escuridão celeste."(Profundo trecho da crônica este,em minha opinião).

Triste,porém ótima crônica Mário . Mais uam vez parabéns!
Abraços.