Sai todos os dias às sete horas e quinze minutos da manhã. Mas antes prepara a filhinha para a escola e o almoço do marido. Pega um ônibus apinhado de gente. A maioria ela conhece por nome. Faz o mesmo itinerário todos os dias.
É balconista de uma loja de autopeças. Passa o dia recebendo cantadas grosseiras e engraçadas e quase-sedutoras dos muitos sujeitos que vão até lá para aparelharem seus carros novos ou em ótimo estado de conservação.
Durante o almoço, tomado na própria loja em virtude da lonjura entre o trabalho e sua residência, pensa no marido que ficara em casa. O olhar num ponto longínquo. Mastiga pedaços de carne cheios de nervos.
O marido também acorda cedo. Tem como responsabilidade levar a filhinha à escola. Depois volta para casa e fica vendo TV até chegar a hora do almoço quando esquenta a comida preparada pela esposa.
Antes, nos primeiros seis meses de desemprego, passava também os dias fora procurando trabalho. Só voltava à noite. Cansado. Até o dia em que não saiu. Foi vencido e enfraqueceu e perdeu o amor próprio. Desistiu.
No fim do expediente, ao olhar no calendário, ela faz as contas. Um ano e dois meses e vinte e oito dias de desemprego dele. Imagina que como acontece nos últimos meses irá encontrar o marido na calçada de casa.
Ele estará sem camisa e fumando um cigarro barato. Seu olhar estará opaco. Ela irá fazer o jantar e convidá-lo. Jantarão em silêncio. Verão TV. Dormirão na mesma cama, mas não farão amor. Ele diz que não tem o direito de possui-la já que é sustentado por ela.
Ela entra na rua estreita ou beco onde mora. Se surpreende sem a constante presença do marido na calçada. Alguma coisa acontecera. Seu coração resignado parece bater mais forte ou talvez seja só o cansaço da subida.
Em casa uma surpresa: uma noite só deles. O homem havia feito o jantar e levado a filhinha à casa da avó materna. Alguma coisa acontecera, ela pensa. O homem há muito tempo não ri daquele jeito. A mesa está decorada.
Uma tigela com um frango assado. Dois copos graúdos e entre eles uma embalagem de dois litros de coca-cola. Uma tigela menor com vinagrete. Outra tigela com farofa. No centro da mesa há dois pires.
Num deles há uma vela amarela e no outro há uma vela azul. Dois pratos emborcados e talheres. O marido risca um fósforo e acende as velas quando a esposa entra. As velas ele ganhara dela no aniversário de primeiro mês de namoro.
Anexo a cada vela vinha sua mensagem esotérica. Vela Azul: Significa a verdade, a tranqüilidade, a compreensão. Está associada ao planeta Júpiter, ao trabalho e aos negócios.
Vela Amarela: Significa a vida, a alegria, o entusiasmo, o vigor mental, o poder. Está associada ao Sol, aos relacionamentos de dar e receber, aguça o intelecto. Ela sabe o significado das velas.
Algo acontecera naquele dia. Ela tem agora certeza. Mas quer manter o suspense. Falaram banalidades durante o jantar. Lembraram um tempo antigo quando foram, senão felizes, satisfeitos ao menos.
Ele apaga as velas quando acaba o jantar. A sala inicialmente escura é aos poucos dominada por uma fraca luz cúmplice vinda da rua. Ele a abraça. Neste abraço a mulher sente o antigo vigor do seu homem.
Sabe que o desemprego é capaz de inibir a libido, o que acontecera nos últimos meses, mas jamais eliminá-la. Ela pensa em perguntar ao ver a energia dele recuperada. Mas não faz isso. Não quer tirar do marido o prazer de falar.
O abraço sôfrego e o beijo forte fazem o casal cair imperfeitamente sobre o sofá. Ela quase faz a pergunta. Carícias e afagos ousados. Estão quase despidos. Ele sem camisa e ela só com as roupas de baixo.
A mulher pergunta: Você arranjou um emprego? Ele cessa as carícias. Afrouxa o abraço. Sai de cima de sua esposa. Deixa-a interrogativa e arfando sobre o sofá furado. O homem se retira de casa.
A mulher enxuga as lágrimas com as peças de roupas que apanha uma a uma pelo chão da sala. Sente-se encurvada também interiormente. Ele não vai para muito longe. Fica sentado num dos degraus da calçada de casa.
O homem havia durante o dia matado um rato gigante que invadira o beco – e por isso recebido uma ovação de velhas aposentadas e crianças remelentas – aquilo fora suficiente para ele se sentir novamente útil. Porém continua desempregado.
Como há um ano e dois meses e vinte e oito dias. Também ele contabiliza diariamente sua agonia. Uma linda lua redonda domina o céu. Mas para aquele homem é apenas um buraco branco no meio da escuridão celeste.

6 comentários:
Devo confessar que eu não ia conseguir dormir se não me redimisse de algum jeito, em relação ao último comentário que postei.
Mas,não é só por isso que estou aqui,é que realmente esse seu conto merece destaque...
"Ele diz que não tem o direito de possui-la já que é sustentando por ela."
Então isso é um dever de toda mulher que é sustentada pelo homem?
Nossa que pensamento estranho o seu,mas que admiro.
Beijo.
P.S: Não conhecia esse seu lado tão sentimentalista,por isso resolvi fazer uma 'brincadeirinha'.
Mas não esperava que fosse tão ruim assim. Me desculpe.
Primeira e última vez!
"Foi vencido e enfraqueceu e perdeu o amor próprio. Desistiu." ISSO PODE GERAR CONSEQUENCIAS graves.
Foi o que aconteceu, ele se resdescobrira, porém a mulher não tinha como saber o que tinha ocorrido....
Parabéns
...
Mt bom, mas meio triste (como sempre).
=/
Discordo do machismo do marido, mas sei que isso não se limita de jeito nenhum a ficção.
Fiquei com pena da mulher...
=(
Mas fazer o que?! Eu é que já devia estar acostumada com esses finais!
Bom final de semana!
Abraço!
"Faz o mesmo itinerário todos os dias."
Lembrei de uma música acolá...
como é mesmo?
Mariana alguma coisa...
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
um post excepcional...
admito!
percbi algumas mensagens camufladas - não sei se existem mesmo - mas eu encontrei!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
sobre o desemprego...
bem, já é de praxe ver isso na TV relacionado à crise... então. No coments!
sobre ele a ovação...
acho que isso serviu pra ele perceber que nem tudo estava perdido...
q ainda existe uma esperança... e q, de um modo ingênuo e meio que "sem querer", a mulher meio que quebrou ou ofuscou, não de propósito, essa nova esperança dele... e ele então retornou pro submundo de breu dele...
achei triste...
mas reflexivo...
só podia ser Màrio mesmo..
kkkkkkkkkkkk
congratulations!!
Nossa ! O homem está "vazio" e triste. A mulher 'curiosa' e arrependida pelo o que fez. Talvez perguntando-se para que qe ela foi fazer aquela pergunta em uma situação e hora inexata .
"Uma linda lua redonda domina o céu. Mas para aquele homem é apenas um buraco branco no meio da escuridão celeste."(Profundo trecho da crônica este,em minha opinião).
Triste,porém ótima crônica Mário . Mais uam vez parabéns!
Abraços.
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