GRISALHASão duas mulheres. Uma mais jovem do que a outra. Estão de mãos dadas. O forte vento muda de lugar as dunas onde elas pisam. Os pequenos grãos de areia em movimento constante agridem suas pernas sensíveis. Caminham e sabem para onde ir.
Ele era lindo, diz a mais velha. O homem mais lindo que conheci ou conhecerei.
O rosto era perfeito? O corpo sarado?, pergunta a mais jovem.
Não. Era uma beleza que se revelava no seu humor, na sua generosidade.
Que bonito.
E no seu bom coração, no carinho por mim. No olhar.
No início?, pergunta a mais jovem.
Não apenas no início, sempre. Ele nunca deixara de me escutar, de se interessar por meus quadros, por mim.
Então?
Foi a insegurança quem puxou o gatilho, ele dissera.
Insegurança?
Insegurança que eu mesma havia causado, segundo ele.
Era um desculpa da parte dele? Uma espécie de racionalização?
Não, acho que não. Ele era ciumento. Mas também tive culpa. Incitei, em algumas ocasiões, o ciúme dele. Precisava me afirmar, ser cortejada, assediada, desejada, entende? No fundo, eu o amava mais que tudo. Todos aqueles outros homens, que de mim se aproximavam, ricocheteavam, batiam, mas nunca, nunca!, se acoplavam. Não representaram absolutamente nada pra mim. Mas éramos jovens, com duas décadas de vida não se sabe absolutamente nada. Ainda mais em se tratando do amor.
Um longo silêncio entre as mulheres. Céu azul. Areia por todos os lados. Nenhum ser humano além delas. O lugar teria eco? Querem saber, mas têm vergonha de gritar. Caminham. Sobem e descem dunas sem se importar com o sol.
Mas ele sabia disso?, pergunta a mais jovem.
Claro. Sempre deixei claro que o amava, que o queria. Que ele era o máximo.
Mas ele percebia?
Não. Não entendia. Me policiava. E sofria muito.
E você?
Eu não sofria, achei que ele sempre estaria ali, ao meu lado.
O fim, quando foi?
Eu ainda não sabia que estava grávida. Não tínhamos necessariamente brigado, falávamos normalmente, então ele se virou para mim e disse, olhando nos meus olhos: Você vai se arrepender.
Qual foi sua reação?
Não prestei atenção. Pra mim, as palavras não tinham as significâncias e ressonâncias que tinham pra ele. Naquela frase simples, ele estava dizendo adeus. Mas dizia mais, dizia que eu não dera o valor que ele merecia, que não prestara atenção, que o subestimei, que o vilipendiei, porém só perceberia tudo isso, e a certeza disso, depois de muito tempo.
E depois?
Depois ele parou de escrever. Casou-se com uma menina comum, que passaria suas roupas, que limparia sua casa, que o esperaria com um jantar saboroso no fim do dia, que seria, se não fosse estéril, a mãe de seus filhos e que seria, hoje posso confessar, feliz, porque era impossível pra uma mulher não ser feliz ao lado dele. Feliz numa intensidade da qual jamais sequer me aproximei. Mas ela morreu jovem, eles viveram juntos dez anos. Fui ao funeral dela. Foi a única morta que vi que não tinha cara de morta, mas de plenitude.
Outro silêncio entre as mulheres. No côncavo formado por um arredor de dunas está a lagoa. Águas azuis.
E depois do enterro? Vocês se falaram?
Sim, depois do enterro nos falamos. Uma conversa que esperara por dez anos. Perguntei, num canto, se ele ainda me amava como antes. Se assim fosse, queria ficar com ele, aceitaria qualquer exigência. Olhou-me profunda e lentamente, não respondeu nada. Depois soube que ele mudara-se para outro país, ou cidade longínqua, não sei bem. Fez rápida fortuna. Os inimigos e invejosos diziam que ele enriquecera traficando drogas no atacado. Não sei se era verdade.
Houve um último encontro?
Houve. Você já devia ter uns quinze anos. Ele estava lindo, como sempre. Seu corpo era ainda mais rijo e definido do que quando recém-saíra da adolescência. Veio espontaneamente, sem avisos. Havia uma empáfia angustiante que chegava a humilhar o interlocutor na sua voz de então. Mais uma vez usou apenas uma frase, com todas as ressonâncias e significâncias: Você se arrependeu?
A mulher mais jovem perguntou: E você?
Eu disse a ele: Claro que não me arrependi. Como eu devo ter parecido patética a ele. Como eu não tinha me arrependido se ainda lembrava da sua última frase? Se chorei, todos os dias daqueles quinze anos de intervalo, porque o havia perdido e porque todos os homens que conhecera, antes e depois dele, eram uns imbecis. Naquele dia, ele me mostrou um envelope. Dentro deste havia uma relação de todas as suas posses materiais, inúmeras, convertidas para o meu nome. Ele disse: Agora tenho o direito à tua exclusividade? E foi embora pra sempre e como doeu. Dói.
As mulheres param diante da lagoa no meio das dunas.
Este era o lugar preferido dele, diz a mulher mais velha.
Tinha mesmo bom gosto. É o lugar mais lindo que já vi.
Mergulhe, a água é morna e límpida. Ele amava mergulhar.
Enquanto a filha toma o banho, a mãe lembra mais um encontro. O verdadeiro último encontro: uma encomenda que chegara pelos Correios. A mulher mais velha tira da sua mochila a encomenda: um recipiente cheio de cinzas.
A mulher mais velha derrama com calma as cinzas dele no lugar que ele desejaria. No lugar que ele mais amou sobre a terra. No lugar que, embora ele jamais soubesse, gerou a única filha que deixara no mundo.
O que é isso, mãe?, pergunta a mulher jovem, de dentro d’água.
Nada filha. Só poeira. Só poeira.
O fim, quando foi?
Eu ainda não sabia que estava grávida. Não tínhamos necessariamente brigado, falávamos normalmente, então ele se virou para mim e disse, olhando nos meus olhos: Você vai se arrepender.
Qual foi sua reação?
Não prestei atenção. Pra mim, as palavras não tinham as significâncias e ressonâncias que tinham pra ele. Naquela frase simples, ele estava dizendo adeus. Mas dizia mais, dizia que eu não dera o valor que ele merecia, que não prestara atenção, que o subestimei, que o vilipendiei, porém só perceberia tudo isso, e a certeza disso, depois de muito tempo.
E depois?
Depois ele parou de escrever. Casou-se com uma menina comum, que passaria suas roupas, que limparia sua casa, que o esperaria com um jantar saboroso no fim do dia, que seria, se não fosse estéril, a mãe de seus filhos e que seria, hoje posso confessar, feliz, porque era impossível pra uma mulher não ser feliz ao lado dele. Feliz numa intensidade da qual jamais sequer me aproximei. Mas ela morreu jovem, eles viveram juntos dez anos. Fui ao funeral dela. Foi a única morta que vi que não tinha cara de morta, mas de plenitude.
Outro silêncio entre as mulheres. No côncavo formado por um arredor de dunas está a lagoa. Águas azuis.
E depois do enterro? Vocês se falaram?
Sim, depois do enterro nos falamos. Uma conversa que esperara por dez anos. Perguntei, num canto, se ele ainda me amava como antes. Se assim fosse, queria ficar com ele, aceitaria qualquer exigência. Olhou-me profunda e lentamente, não respondeu nada. Depois soube que ele mudara-se para outro país, ou cidade longínqua, não sei bem. Fez rápida fortuna. Os inimigos e invejosos diziam que ele enriquecera traficando drogas no atacado. Não sei se era verdade.
Houve um último encontro?
Houve. Você já devia ter uns quinze anos. Ele estava lindo, como sempre. Seu corpo era ainda mais rijo e definido do que quando recém-saíra da adolescência. Veio espontaneamente, sem avisos. Havia uma empáfia angustiante que chegava a humilhar o interlocutor na sua voz de então. Mais uma vez usou apenas uma frase, com todas as ressonâncias e significâncias: Você se arrependeu?
A mulher mais jovem perguntou: E você?
Eu disse a ele: Claro que não me arrependi. Como eu devo ter parecido patética a ele. Como eu não tinha me arrependido se ainda lembrava da sua última frase? Se chorei, todos os dias daqueles quinze anos de intervalo, porque o havia perdido e porque todos os homens que conhecera, antes e depois dele, eram uns imbecis. Naquele dia, ele me mostrou um envelope. Dentro deste havia uma relação de todas as suas posses materiais, inúmeras, convertidas para o meu nome. Ele disse: Agora tenho o direito à tua exclusividade? E foi embora pra sempre e como doeu. Dói.
As mulheres param diante da lagoa no meio das dunas.
Este era o lugar preferido dele, diz a mulher mais velha.
Tinha mesmo bom gosto. É o lugar mais lindo que já vi.
Mergulhe, a água é morna e límpida. Ele amava mergulhar.
Enquanto a filha toma o banho, a mãe lembra mais um encontro. O verdadeiro último encontro: uma encomenda que chegara pelos Correios. A mulher mais velha tira da sua mochila a encomenda: um recipiente cheio de cinzas.
A mulher mais velha derrama com calma as cinzas dele no lugar que ele desejaria. No lugar que ele mais amou sobre a terra. No lugar que, embora ele jamais soubesse, gerou a única filha que deixara no mundo.
O que é isso, mãe?, pergunta a mulher jovem, de dentro d’água.
Nada filha. Só poeira. Só poeira.

4 comentários:
"Nada filha. Só poeira. Só poeira." Poeiras que poderiam formar um castelo.
Pena que tenha sido assim. Mas o aprendizado ficou.
Muito bom.
Parabéns
Bem tocante.
Bem triste.
Bem real.
Mas que não deixa de ser 'mais' um conto perfeito.
Você não enjoa de escutar isso em todos os seus contos?
Que tal mudar,anh?!
Minto.
Mais uma lição de vida.
Só você.
P.S: Já que o assunto é tristeza...
Que prova foi aquela de Português?
Tinha que ter alguma coisa para estragar o meu dia.
...
Tô tentando arrumar uma palavra que faça justiça ao conto, mas no momento não consigo achar... Posso pecar por excesso ou (mais provavelmente) por falta, então melhor ficar em silêncio.
=D
Só digo uma coisa: me orgulho em ser sua aluna!
;D
Grande abraço!
Acho que essa foi a história que me passou mais emoção, sem dúvidas.
E mais uma vez, Parabéns mestre ;)
abraço.
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