quinta-feira, 26 de março de 2009

NEGRA

Olhos de ágata, como dizia o jovem poeta. Cabelos como a asa da graúna, como dizia o velho escritor. Boca rosada que inteligente falava gracinha pra pouca idade que tinha. Sorriso de leite: para todos beberem. Laço de fita vermelho e vestidinho branco, como o rosto, sedoso. Copia perfeita da mãe – pensava o pai – orgulhoso, ao vê-la bebê.

Os olhos de ágata em olhos de águia se tornaram e os cabelos luziram ainda mais. A boca rosa era agora falante e fonte de delícias ocultas. Fitinhas vermelhas não usava mais. Somente trancinhas às vezes fazia quando a preguiça não deixava se adornar.

Roliças coxas surgiram onde antes cambitos havia. Já nem o vestido de cambraia existia pra dos olhos famintos a beleza ocultar. Já é quase mulher – dizia o pai – pesaroso, ao vê-la crescer.

O pai que bebia levava amigos pra casa. Olhares, gracejos, risinhos e dos mais exaltados – e mais audaciosos – uns beliscões ela sentia. A mãe reclamava, quando a zorra por fim terminava. Mas o pai ébrio não atendia. Às vezes batia na amada sofrida e na filha tão bela. Tentava, em vão, tirar da menina, com violência, a extrema beleza ao vê-la mulher.

Sustenidos e bemóis. Música a menina estudava. E, como se ainda isso fosse possível, os olhos – de brilhos cheios – mais bonitos ficaram. A boca carnuda, além de vermelha, agora cantava e encantava, como dissera um seu colega de sala. De volta pra casa na companhia do amigo – esperam, ambos, superada a timidez, carícias brandas trocar. Mas a ambos faltavam as audácias, a desenvoltura – e a descompostura – dos bêbados amigos, do pai da menina.

No portão, coragem ele junta. Irá pegar na mão tão sedosa de sua amiga. O jovem amigo comete versos às escondidas. Irá recitar à sua amada musicista um soneto singelo e solene que compôs na madrugada. Esquece de na mão tocar, agora resta apenas o soneto, que já está na goela e pretende sair. Chega à boca e vai voar como um pássaro ou borboleta.

Houve um grito. O pai, da sacada de casa, faz a filha e o amigo se afastarem. O soneto: agora ovo podre a explodir na garganta. Acenam tristes como se tivessem perdido o seu grande dia – de fato perderam – embora por hora ignorem a perda.

O pai já está bêbado e o ódio que sente ao ver a filha – tão moça, tão pura – com o namorado ao portão, ainda o faz mais ébrio. Irá bater nela pra ela aprender que com honra não se brinca. Mas a mãe se coloca entre o pai e a filha – em vão. As mulheres da casa apanham outra vez, como se da sina fugir não fosse possível.

É noite de sábado e na família todos já sabem: altas horas, o pai chegará com amigos ébrios pra mais uma farra. A mãe e a filha serão acordadas e acuadas servirão ao plantel. A mãe prepara e a filha serve. Na noite de horrores, recebem velhos toques e nojentos palavrões.

A filha no quarto, olhando as bonecas, deita de bruços na cama tão branca. Descansa do trabalho que é lidar com os bêbados amigos do pai. Um deles, o tio, irmão do pai, para sob o pórtico do quarto e contempla a sobrinha tão bela e crescida – seus olhos de álcool não veem pra dentro o sangue que têm, só veem pra fora o corpo de mulher.

Foi a mãe quem gritou, ao chegar ao quarto, por ter dado falta da sua filha. Jogou as bonecas que apanhara no piso nas costas do maldito cunhado. O pai ao chegar completou a tarefa e o irmão bêbado resolveu matar. Mas assim não fizera porque o irmão culpou a sobrinha pela sedução e da casa saiu antes que algo de ruim lhe sobreviesse.

Ruminando a insinuação do violentador, o pai olha com nojo pra filha, que os trapos recolhe do que vestia. A mãe só chora, muda, o que é um costume – de dor, de vergonha. A casa é silêncio por muitos momentos.

Rua!, o pai diz. A mãe estanca o choro e não compreende. Rua!, repete o pai em direção à filha. Ela com trapos de roupa na mão, apanha a fronha e da boca resgata o pouco de sangue que ainda escorre. A dor de agora é mais forte do que a de antes.

Enquanto a filha de casa sai, o pai fala que a viu noutros momentos dando liberdade pros amigos da rua, pros colegas do curso de música e da escola normal, pros primos pequenos e pros tios maiores.

Nove meses depois: Cemitério, céu azul, dia brilhoso, pessoas gemendo. A filha no parto morrera, tão pouca idade a coitadinha tinha. Do lado de fora do cemitério, ao homem sem filha só resta ponderar sobre a culpa que tem.

Ao longe divisa a esposa, tão murcha. Um dia fora mãe e hoje estanca no patamar de mera mulher. Mas, o quê?, ela carrega consigo um bebê? Rodeado em cobertas, chupando chupeta. A mulher estanca diante do marido, culpado por tudo, por tudo de ruim. Mostra o bebê que a filha deixara.
O homem ergue a visão e olha: um bebê apenas. Mas ninguém sabe o que ele vê. Seu punho é cerrado. Posição de soco. Cerrado permanece. Cerrado chegará ao corpo da pobre criança, que antes do golpe sorri, com riso de leite, mesmo ausente de dente. Mas depois chora, com olhos de ágata molhados – cópia perfeita dos olhos da mãe que se fora.

6 comentários:

Luanny Porto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luanny Porto disse...

Acho que a aula de terça lhe deixou alguma lembrança,não é mesmo?!
Ou melhor falar nesse assunto já é assunto de inspiração para você!
Isso me deixa até assustada,mas "abafa".

"Sem mais delongas,ficou muito satisfatório seu conto,continue assim!" HAHAHA.

Sentiu?!

Beeijo.

P.S:Eu tinha que ser a primeira nesse! :P

Jorge Barros disse...

Nossa. Muito bom o conto porém muito triste.

Pena que seja a realidade.

Parabéns!

Amanda Oliveira disse...

...
Acho que um dos contos mais tristes até agora.
=/
Pior parte: o último parágrafo.

Depois dessa só me resta desejar um bom fim de semana e esperar pra ver o que virá na quinta que vem!
;D
Abraço!

Ana Beatriz Maciel disse...

Hum, fiquei com peninha do bebê ;/
Ah profe°, desculpa a minha ausência, mas eu estava de castigo da net, sabe? Coisa de pai e mãe...
Maaaaaaaas, porém, contudo, todavia, entretanto, eu digo e repito: O melhor escritor é Mário Rodrigues (L)

Jéssica disse...

Que triste esse, porém muito muito criativo.
' Cabelos como a asa da graúna' me lembrei de Iracem kkkkkkkkk!
Parabééns mais uma vez ;)

beijo.